Visto de fora

Os republicanos e o Medicare

por Paul Krugman, Publicado em 19 de Fevereiro de 2010   
Os republicanos parecem ter mudado de opinião e estar a favor da reforma de saúde americana, mas é pura hipocrisia. Odeiam o Medicare e tentam destruí-lo a todo o custo
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"Não reduzam o Medicare. As leis de reforma da saúde aprovadas pela Câmara dos Representantes e pelo Senado cortam ao orçamento do Medicare cerca de 500 mil milhões de dólares. Está mal." Assim falou Newt Gingrich, antigo presidente da Câmara dos Representantes, num recente artigo escrito em conjunto com John Good- man, presidente do National Center for Policy Analysis.

E a ironia morreu....

Gingrich estava apenas a repetir a actual posição do partido. Os republicanos têm denunciado acaloradamente todos e quaisquer esforços para fazer poupanças no Medicare - "painéis da morte!". É a sua principal estratégia para envenenarem a reforma da saúde. O espantoso é que estão a consegui-lo.

Espantoso porquê? Não é só porque os republicanos agora adoptam a pose de defensores ferrenhos de um programa que odeiam desde que Ronald Reagan avisou que o Medicare ia destruir a liberdade dos Estados Unidos. Nem é só porque Gingrich, na sua qualidade de presidente da Câmara dos Representantes, tentou pessoalmente forçar grandes cortes no Medicare, tendo chegado ao ponto de, em 1995, secar o financiamento do governo federal na tentativa de obrigar Bill Clinton a aceitar esses cortes.

O que nos deixa verdadeiramente estupefactos é que, ao mesmo tempo que denunciam propostas modestas para refrear os custos crescentes do Medicare, os republicanos estão, eles próprios, a procurar desmantelar o programa na sua totalidade. E o processo de desmantelamento começaria por cortes na despesa de 650 mil milhões de dólares ao longo da próxima década. A Matemática é uma disciplina difícil, mas creio que isso é mais que os cerca de 400 mil milhões de dólares (e não 500 mil milhões) de poupanças no Medicare previstas na legislação de saúde dos democratas.

Refiro-me ao Roadmap for America's Future (carta de navegação para o futuro dos EUA), o plano orçamental recentemente divulgado pelo congressista Paul Ryan, o membro republicano mais categorizado da Comissão da Câmara dos Representantes para o Orçamento e que representa de facto o que o Partido Republicano tentaria fazer se regressasse ao poder.

O quadro geral que emerge da "carta de navegação" é uma política económica que não mudou nem uma vírgula para reagir aos fracassos económicos da era de Bush. Com efeito, Ryan propõe um plano para a privatização da Segurança Social que é, em essência, idêntico ao das propostas de Bush de há cinco anos.

Mas o que é verdadeiramente notável, dada a maneira como o Partido Republicano tem feito campanha contra a reforma da saúde, é o destino que Ryan pretende dar ao Medicare.

Na proposta de Ryan, ninguém com menos de 55 anos seria coberto pelo Medicare tal como agora existe. Em vez disso, as pessoas receberiam vales e seriam aconselhadas a comprar um seguro próprio. E até esta nova versão privatizada do Medicare sofreria uma erosão com o tempo, porque é quase certo que o valor desses vales perderia terreno em relação ao custo real do seguro de saúde. Quando os cidadãos que estão agora na casa dos 20 ou 30 anos chegassem à idade em que se poderiam habilitar, não sobraria muito do programa Medicare.

E quanto aos que já estão cobertos pelo Medicare e aos que entrariam no programa durante a próxima década? Estão a salvo, garante a "carta de navegação"; continuam a ter direito ao Medicare tradicional. Com a ressalva de que o plano "reforça o actual programa com alterações como a indexação das comparticipações nos medicamentos ao rendimento, para se garantir a sustentabilidade a longo prazo".

Se isto lhe parece calão técnico propositadamente confuso... é porque é. Felizmente, o Gabinete do Congresso para o Orçamento, que avaliou a "carta de navegação", oferece uma tradução: "Algumas das pessoas cobertas pelo programa que tenham rendimentos mais altos pagariam prestações mais altas, e alguns pagamentos proporcionados pelo programa seriam reduzidos." Em suma, haveria cortes no Medicare.

É possível ter uma ideia da dimensão desses cortes a partir da análise do gabinete para o orçamento, que compara a proposta de Ryan com uma "base" representativa do actual enquadramento. Como já referi, o total, ao longo da próxima década, é de 650 mil milhões de dólares - um montante substancialmente maior que as poupanças do Medicare constantes nas propostas de lei dos democratas.

O cerne da questão é que a cruzada contra a reforma da saúde se tem apoiado essencialmente numa hipocrisia desbragada: os republicanos, que odeiam o Medicare e tentaram fazer-lhe cortes profundos no passado, continuam a tentar destruir o programa. Têm vindo a marcar pontos políticos por denunciarem as propostas de poupanças modestas - substancialmente inferiores aos cortes na despesa escondidos nas suas próprias propostas.

E se os democratas não arrumarem a casa e não empurrarem a sua reforma quase concluída para além da linha da meta, este espectáculo de hipócrita prestidigitação republicana acabará por levar a melhor.

Economista Nobel 2008

Escreve à sexta-feira

Exclusivo i/The New York Times


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