Acordar e ir para o ringue todos os dias - vídeo
por Luís Leal Miranda, Publicado em 19 de Fevereiro de 2010
Documentário português sobre um boxeur americano? É isso, mas não é só isso, explica Bruno de Almeida
Bruno de Almeida diz que não entende nada de desporto. "Nada, nem de futebol. E também nunca percebi nada de boxe." A conversa vai a meio e ainda não se percebeu o que levou este realizador de 44 anos, que já foi músico e viveu duas décadas em Nova Iorque, a fazer um documentário de 70 minutos sobre um lutador de boxe. Sobretudo um como Bobby Cassidy, pugilista canhoto cujos ecos de vitória nunca chegaram a este lado do Atlântico. Há uma explicação, mas é uma longa história. E começa em 2001.
"Estava a fazer um documentário sobre boxeurs reformados e conheci o Ring 8, em Nova Iorque, uma associação de veteranos que junta ex-lutadores e tem uma espécie de sistema de segurança social interno: se um deles precisar de ir ao dentista juntam todos cinco dólares e ajudam a pagar a consulta." Bruno de Almeida vai relatando a experiência, guiando a conversa até ao clímax, como num filme. "Conheci um jornalista especializado em boxe que era filho de um pugilista. Comecei a ouvir as suas histórias e era uma metáfora do mundo do boxe." Esse homem era Bobby Cassidy.
Ser humano Do que Bruno de Almeida estava à procura não era apenas de uma metáfora do boxe, mas também de uma metáfora da vida. Felizmente, as duas andam sempre juntas. "Um gajo acorda de manhã e vai para o ringue todos os dias", diz o realizador, sentado no sofá da sala com vista panorâmica para o Tejo, na Rua Victor Cordón. É chamada à conversa Joyce Carol Oates, autora de "On Boxing", um ensaio sobre o que se passa em cima da arena e cuja influência foi muito útil para o realizador. Almeida levanta-se, vai buscar o livro e lê alto: "Escrever sobre boxe é ser obrigado a contemplar não apenas o pugilismo, mas os perímetros da civilização - e perceber o que é ser humano."
Durante a entrevista Bruno de Almeida volta à estante mais duas vezes - sai de lá "The Fight", de Norman Mailer, e uma fotobiografia de Muhammad Ali - até à conversa sobre pugilismo terminar por knock out técnico. "Este filme não é sobre boxe. É um filme sobre a família, sobre o amor de um pai pelos filhos", revela o realizador.
Bruno de Almeida não escolheu Bobby Cassidy pela sua mão esquerda, nem por ter sido o único pugilista a remover a cartilagem à volta dos olhos para lutar durante mais dez anos. Escolheu esta história por força das circunstâncias: "Na altura fazia o luto do meu pai. Olhei para as imagens e bateu-me: isto é a história de uma relação pai-filho."
Cinema Low-cost "Bobby Cassidy, Counterpuncher" resulta de duas entrevistas feitas ao pugilista - "as mais espontâneas", gravadas em 2001 e 2002 - fundidas com imagens reais de vários combates filmados no formato Super 8, entre 1960 e 1978. E pouco mais.
O documentário vive de uma filosofia low-cost que se adapta bem ao tipo de cinema de que Bruno de Almeida gosta. "Filmar com poucos recursos faz parte da minha maneira de abordar o cinema. Gosto de andar de câmara na mão. Não filmo com película mas com uma câmara digital baratinha, gravo por cima de outras cassetes", explica. O documentário que está desde ontem nas salas portuguesas custou 3 mil euros, envolveu uma equipa de três pessoas e foi montado em casa - "custou tanto como o catering de uma semana de filmagens de uma longa metragem modesta. E passa bem no cinema, não passa?" Passa. "É assim, tens de ser contrabandista, ir buscar a um lado para usar noutro."
Rotatividade Bruno fala à vontade do assunto preferido da maioria dos realizadores portugueses: a falta de dinheiros e de apoios. Mas o tom é diferente. "É muito difícil viver do cinema, e quem disser o contrário está a mentir", afirma sem lamentar.
O realizador de "Lovebirds" (2007), amigo pessoal de Michael Imperioli ("Os Sopranos") e protegido de Amália Rodrigues, consegue dar a volta aos problemas financeiros. "Fiz muitos trabalhos para televisão e publicidade, mas são coisas que não ponho no meu currículo: trabalhos institucionais, que faço só para ganhar dinheiro." E explica um seu sistema de rotatividade que o faz alternar entre projectos com valores altos, recorrendo a subsídios e trabalhos pessoais: "Filmes como 'Bobby Cassidy' faço durante os fins-de-semana, tudo à minha conta. Não gosto de estar parado."
O documentário vai estar em duas salas de cinema, uma em Lisboa (King) outra no Porto (Campo Alegre). Mas pode ser projectado em ecrãs mais interessantes. Basta Robert De Niro gostar do filme: "Enviei o filme através da filha dele, que trabalhou comigo. O Robert foi treinado pelo Bobby na altura do 'Touro Enraivecido'. Se ele gostar, pode ser que se abram umas portas."
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