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Jesualdo vs. Domingos. Podiam ser pai e filho, mas haverá traição?

Publicado em 19 de Fevereiro de 2010   
Quando Domingos começou a treinar já Jesualdo tinha começado o Braga de hoje. Mas agora, é para ele que o ancião pode perder a Liga
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Começamos pelo mais velho, Jesualdo Ferreira, porque tem idade (63) para ser pai de Domingos Paciência (41) e, em parte, está na génese do Sporting de Braga de hoje, esse improvável candidato ao título que agora joga no Estádio do Dragão. Quando Jesualdo se tornou treinador/jogador do Valpaços em 1965, com 19 anos, o actual treinador do Braga ainda não tinha nascido - haveria de crescer em Leça da Palmeira, tornar-se goleador do FC Porto, abandonar a carreira e começar a treinar em 2004, numa altura em que Jesualdo já tinha 39 anos de percurso. E onde estava o professor nessa altura? Pois é, em Braga.

Portanto, para já prioridade ao treinador ancião da Liga, um homem que se pensava acabado quando foi humilhado e despedido do Benfica - Argel e a sua tropa fizeram-lhe a vida negra - mas logo depois acabou em Braga indicado a António Salvador por Luís Filipe Vieira, fixando o clube minhoto na posição de quarto grande do novo século e no sonho de um título à Boavista. Foi em Braga que Jesualdo se regenerou para o futebol e apagou a imagem deixada na Luz, ao ponto de Pinto da Costa o desviar do Boavista e levar para o FC Porto para se tornar no único português que conquistou três campeonatos consecutivos. O contrato só termina no final da próxima época e ninguém se vai admirar se Domingos pegar na herança. Mais uma vez.

Jesualdo Ferreira nasceu em Carvalhais (Mirandela) e com dois anos foi para Nova Lisboa (Huambo, Angola). Voltou a Portugal, andou no liceu em Chaves, é do tempo em que o francês era a língua estrangeira aprendida e falada, ainda hoje é menos fluente no inglês que entretanto viu banalizado. "Nunca tive grandes dificuldades para comer, vestir e estudar", disse numa entrevista à "Visão", embora se mostre marcado pelo analfabetismo e pela pobreza que o rodeava. Aproveitou para se formar e despertou na vida e no futebol. "Na faculdade, nas lutas estudantis, ganhei, então, outra formação e estrutura", conta. Em 1970 acabou a licenciatura em Educação Física e ganhou o canudo e o cognome de professor, essa qualidade que em futebol tanto serve de virtude como de defeito.

Se nem na primeira divisão um prof. é bem recebido, está visto que Jesualdo Ferreira arranhou pelas divisões inferiores. "Em alguns clubes entenderam-me, noutros não. Sabe o que é treinar na 2.a divisão, às oito da noite, só com uma bola? E deixar as bolas boas para jogar ao domingo?" Ainda assim, lá andou por clubes como Rio Maior, Atlético e Torreense, a treinar o que tinha aprendido nos estágios por França ou pelo Leste. "Estive nas melhores escolas soviéticas e praticamente um mês em Kiev, com o Lobanovsky, treinador da mítica equipa do Dínamo", lembrou à "Visão".

VESTIR BEM Os anos trouxeram-lhe uma imagem pesada, grave, mas Jesualdo Ferreira também é o homem que assume gostar da noite, de vestir bem. Se calhar é por aqui que se encontra uma semelhança com o sempre aprumado Domingos. Nisso e na cultura de FC Porto que ambos desenvolveram, o primeiro porque lá treina - "[o clube] ensinou--me uma cultura unitária" - e o segundo porque lá ganhou sete campeonatos.

Passemos então para o mais novo, Domingos, aquele frágil futebolista que marcou 144 golos no FC Porto. As aparências iludem e às tantas o mesmo vai acontecer com o treinador que apareceu meio inseguro e trémulo em Leiria e na Académica, mas logo estabilizou os dois clubes na Liga. Daí até Braga foi um salto. Pensava-se que a sua personalidade seria comida num balneário complicado, que só se vergou perante Jorge Jesus, depois de triturar Jorge Costa, Manuel Machado, Carlos Carvalhal ou Rogério Gonçalves. Mas ele lá está, a liderar uma equipa que parece morrer em campo, por Domingos ou por outra coisa qualquer, talvez o título nacional, mesmo depois do choque com a saída prematura das competições europeias.

A sua fórmula, explicou em tempos, é ser um líder "relacional", alguém que tenta "conhecer os jogadores e perceber a sua vida para poder conduzi-los melhor". Depois, motiva-os com objectivos "individuais" ou "colectivos". A vitória no campeonato? Ninguém assume mas no final da época também ninguém poderá admirar-se se Domingos pegar nessa outra herança de Jesualdo Ferreira e trair o campeão - afinal, este ano ainda não fez outra coisa que não ganhar todos os jogos aos grandes e perder agora com o FC Porto seria mesmo uma grande novidade. O Domingos do passado não existe enquanto treinador. É antes o futebolista, habilidoso, pernas magras, aparentemente inofensivo mas mortífero, com a carreira no FC Porto interrompida para uma passagem pelo Tenerife numa altura em que chegou Mário Jardel. Curiosamente, no banco virou especialista na defesa - sofreu apenas oito golos em 19 jogos.


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