Teatro
Matou o pai e casou com a mãe. Tragédia no D. Maria
por Vanda Marques , Publicado em 18 de Fevereiro de 2010
Diogo Infante desafiou e Jorge Silva Melo não pensou duas vezes. Reescreveu "Rei Édipo", livrou-o das frases compridas e deu-lhe percussão
Encontraram-se num café do Chiado depois de um telefonema rápido. Debaixo do braço, Diogo Infante levava o "Rei Édipo". Mal se sentou com Jorge Silva Melo e a conversa arrancou tiveram de a interromper. A capa do livro podia denunciar o tema do encontro. Nem Diogo nem Jorge queriam que os jornalistas descobrissem que ali se debatia a possível apresentação do clássico de Sófocles "Rei Édipo" no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.
"Foi a 23 de Abril (2009), lembro-me perfeitamente porque estava no lançamento de um livro na Fnac do Chiado. O Diogo ligou-me e quis encontrar-se comigo naquele instante. Fomos para um café e quando pôs o livro em cima da mesa passou uma jornalista. Tratámos logo de esconder a capa", recorda Jorge Silva Melo.
A conversa torna-se hoje realidade. "Rei Édipo" já está esgotado até quinta-feira, mas vai ficar em cena até 28 de Março. A peça, tida como o melhor exemplo da tragédia grega, foi reescrita por Jorge Silva Melo. O encenador queria retirar peso à linguagem. "No texto o verso era muito longo. Por exemplo: 'Ao abrir a porta, Jocasta, a rainha, sai de sua casa e entra pela...' Uma pessoa adormece. Queria um texto nervoso, sem confusões, com vocabulário muito simples."
O lisboeta, que é também actor, cineasta e realizador, libertou o texto de mais uns quantos quilos, sem se afastar da história original. "Tirei aquelas coisas que não suporto nos gregos. Porque é que eles punham os nomes de todos os ventos?"
Jorge Silva Melo acrescentou ainda mais dinamismo. Quando a peça começa somos surpreendidos por um barulho que se assemelha ao sopro de uma tempestade. "Queria o ambiente de um tremor de terra." O coro, que no original tem 15 membros, aqui tem quase o dobro. São eles que representam a cidade de Tebas. Mas há mais pormenores importantes na encenação. Foi numa viagem de avião a Madrid que Jorge Silva Melo se lembrou de pôr o palco em plano inclinado (talvez por culpa do avião, conta o próprio) e percussão com Pedro Carneiro.
Diogo Infante diz que "entregou a chave do carro" a Jorge Silva Melo e confiou plenamente nas suas escolhas. "Com peças como esta tem de haver uma entrega total do actor", explica. Diogo já tinha saudades de subir a um palco e o papel de Édipo é um regresso em grande. "Sentia a necessidade de me testar. O "Hamlet" foi muito difícil, estava destruído. Sinto--me mais próximo de Édipo que de Hamlet. Não me considero um intelectual. Hamlet é um homem torturado na sua ambiguidade: "Mato ou não mato?" Identifico- -me mais com Édipo. Também eu sou precipitado, também eu sinto uma força que me impele."
O salvador que é um monstro A história de vida de Édipo explica-se com poucas frases. O rei Laio é avisado pelo óraculo de que não deve ter filhos. Caso desobedeça ao oráculo, será morto pelo próprio filho, que se casará com a mãe. Os pais tentam enganar os deuses, coisa que nunca resulta, e mandam matar o filho. Mas, tal como na história da Branca de Neve, o carrasco não tem coragem. Anos mais tarde, Édipo cruza-se com Laio (o seu pai) numa estrada e é maltratado. Num impulso, mata-o. Chega a Tebas e, como consegue resolver um enigma, salva a cidade da perdição. Casa com a rainha, que na realidade é a própria mãe. Anos mais tarde, depois de ter quatro filhas com a mãe, descobre a verdade e o caos instala-se. É a verdadeira tragédia: o bem e o mal residem na mesma pessoa. "Em Shakespeare o assunto é a ascensão e a queda, na tragédia grega o bem e o mal juntos. Édipo descobre que é um criminoso, parricida que não viu nada do que se passava à sua frente. Ele quer cegar-se para ver mais", explica o encenador.
Teatro Dona Maria II, Lisboa
De 4ª a Sáb. às 21h30 e Dom. às 16h.
Preço: De €7,5 a €30
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