A "descida" do secretário-geral ao partido, que hoje arranca com a reunião do secretariado à hora do almoço, é uma "iniciativa de enorme importância que pode concorrer para ultrapassar este momento mais difícil que passámos nas últimas semanas", disse ontem ao i Francisco Assis, o líder parlamentar do PS.
Para Francisco Assis, "não há a mais pequena dúvida" de que os vários órgãos do partido serão incondicionais no apoio ao secretário-geral. A convocação por José Sócrates do secretariado (hoje às 13 horas), do grupo parlamentar (amanhã às 20 horas) e da comissão nacional (sábado às 10 da manhã) é para o líder parlamentar muito significativa.
"Acho muito importante que se revalorize a intervenção dos vários órgãos do PS. No último ano houve muito poucas reuniões. É necessário que haja mais", afirma Assis, considerando "muito bom" que José Sócrates se reúna com o grupo parlamentar do PS. "É preciso revigorar o partido para que ele possa ter uma intervenção mais activa no debate político", acrescenta Assis. Recorde-se que, antes da apresentação do Orçamento do Estado, chegaram a estar marcadas duas reuniões do primeiro-ministro com os deputados socialistas que foram mais tardes desconvocadas, por impossibilidade da agenda de José Sócrates.
A reunião de hoje do secretariado nacional, marcado na sequência da tensão crescente no partido em resultado da divulgação pública do despacho do juiz de Aveiro - que admite que Sócrates tinha um plano para controlar vários órgãos de comunicação social, nomeadamente a TVI - só reuniu uma vez depois das eleições legislativas, a 27 de Setembro. Convocado em cima da hora, no próprio dia infernal em que José Sócrates esteve nas jornadas parlamentares do PS e acabaria por falhar a audiência com o Presidente da República.
Desta vez, José Sócrates esforçar-se-á para explicar ao partido a sua versão do mais recente escândalo "Face Oculta" e de como estará a ser, na sua óptica, vítima de uma "conspiração". "Quando a verdade vier ao de cima", os portugueses perceberão que o primeiro-ministro não tentou qualquer interferência política, dizem os próximos de Sócrates.
Escudado na decisão do procurador-geral da República, que não viu no despacho do juiz de Aveiro indícios criminais, e no presidente do Supremo, que não validou as escutas entre Sócrates e Armando Vara, o primeiro-ministro continuará a insistir que disse a verdade ao parlamento quando afirmou não ter conhecimento formal da intenção de compra da TVI pela PT e que nada, a não ser os interesses económicos da própria PT, levaram à tentativa de negócio.
Afastada moção de confiança
Apesar da fragilização do primeiro-ministro, o PS não tenciona apresentar nenhuma moção de confiança ao parlamento nem dramatizar ao ponto de forçar eleições antecipadas. A reunião do Conselho de Estado em que Jaime Gama, o socialista que preside à Assembleia da República, esteve em convergência com Cavaco Silva nos apelos à estabilidade, teve um papel dissuasor da dramatização promovida pelo governo.
O que Sócrates quererá provar ao partido, que já faz contas a quanto tempo o primeiro-ministro consegue aguentar- se no cargo, é que está pronto para resistir a tudo e que, não só não se demite, como espera vir a recolher ainda mais apoios na opinião pública.
Secretariado nacional
É o órgão estratégico do partido e de aconselhamento do secretário-geral, José Sócrates. Ao secretariado nacional pertencem, por inerência, o líder da bancada parlamentar, Francisco Assis, o líder do PS Açores (Carlos César) e do PS Madeira (Jacinto Serrão), o líder da Juventude Socialista, Duarte Cordeiro, e a presidente das Mulheres Socialistas, Manuela Augusto. Existem 11 secretários nacionais e cinco adjuntos.
Ana Paula Vitorino
Ascendeu na direcção do partido sob a liderança de José Sócrates, mas foi preterida para ministra das Obras Públicas. Abandonouo governo e integra hoje a bancada parlamentar do PS.
António Costa
É o número dois do PS, mas está hoje afastado do núcleo duro. Acha que Sócrates tem todas as condições para continuar em funções. Se houver demissão, defende a continuidade do PS no governo.
Edite Estrela
É uma histórica dirigente do PS e faz parte do círculo íntimo de amigos do líder. Disse ao i que encarava a reunião de hoje “com naturalidade”. Actualmente é deputada em Bruxelas.
Ascenso Simões
É secretário nacional adjunto e escreveu recentemente no “Expresso” um artigo crítico do governo e do partido. Mas, nesta crise PT/TVI, estará incondicionalmente ao lado do líder.
José Lello
É um dos indefectíveis do socratismo, vindo do gamismo. Foi um dos maiores críticos de Alegre e não admitiu a complacência do PS com o poeta.
Marcos Perestrello
O secretário de Estado da Defesa, antigo número dois do PS em Lisboa, já foi o “homem do aparelho”, indicado por António Costa, de quem é muito próximo.
Augusto Santos Silva
Saiu da frente política para a pasta da Defesa, mas já veio a público defender o primeiro--ministro no caso da PT/TVI. É hoje, porém, um ministro mais resguardado.
André Figueiredo
Homem de grande confiança de Sócrates, a falta de tempo do ministro Vieira da Silva faz com que seja ele, de facto, a fazer as despesas com o aparelho do partido.
Luís Amado
O ministro dos Negócios Estrangeiros, número dois do governo, já viu o seu nome ser equacionado como alternativa para primeiro-ministro em caso de demissão de Sócrates.
Idália Moniz
A secretária de Estado adjunta e da Reabilitação chegou à direcção do partido com José Sócrates. É uma das mulheres de confiança do secretário-geral.
Pedro Silva Pereira
É o braço-direito e o homem da maior confiança de Sócrates. Na sexta-feira afirmou que o primeiro-ministro só abandonaria o governo se fosse derrotado em eleições.
Miranda Calha
Mais outro dirigente que transitou do “gamismo” para o “socratismo”. Foi responsável pelas autárquicas. Actualmente é deputado no Parlamento.
Vieira da Silva
Chegou ao núcleo duro de Sócrates vindo do ferrismo, mas obteve a máxima confiança do líder. É o responsável pelo partido em termos nacionais e ministro da Economia.
Carlos Lage
É um histórico dirigente do PS-Porto, ex-deputado, que José Sócrates convidou para o secretariado nacional. Um dos maiores adeptos da regionalização.
Vitalino Canas
Foi porta-voz do PS e na sequência da derrota das europeias foi substituído por João Tiago Silveira. Porém,a entrada no governo deste último abriu nova vacatura no cargo, nunca preenchida.
Fernando Serrasqueiro
É um dos mais antigos compagnons de route de José Sócrates, também oriundo de Castelo Branco. Foi um dos apoiantes de primeira hora do líder.




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