Constâncio vai para o BCE com "alguma amargura"

por Martim Avillez Figueiredo e Luís Reis Ribeiro, Publicado em 16 de Fevereiro de 2010   
Constâncio escolhido para a vice-presidência do BCE. Vai tutelar a supervisão dos bancos, um cargo de "grande exigência técnica"
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Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, era ontem um homem feliz e triste. Feliz porque foi escolhido pelos ministros das Finanças da zona euro para vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Triste porque, como confessou ao i, sente "alguma amargura por ter sido motivado a deixar o país".
Ontem ao início da noite, em Bruxelas, terminou o suspense de meses sobre quem irá ser o substituto do grego Lucas Papademos, o vice-presidente do BCE, cujo mandato dura oito anos. Mas adensou-se um novo enredo: quem irá para o lugar de governador do Banco de Portugal?
Vítor Constâncio ocupará o novo cargo no BCE a partir de 1 de Junho. Ficará com a tutela da estabilidade financeira e da supervisão do sistema bancário da zona euro, funções que passaram a ser críticas depois da enorme crise financeira que se abateu sobre as economias desde meados de 2007.
"Candidatei-me e sinto-me muito honrado por ter sido escolhido pelos ministros das Finanças dos países do euro para ser proposto ao conselho [europeu]", disse. Segundo o governador, "o processo ainda não terminou, mas foi um passo importante". Constâncio sublinha que a vice-presidência é "um cargo de grande exigência técnica, o que me cria um sentimento de grande responsabilidade". A supervisão dos bancos da zona euro - área monetária que serve 330 milhões de pessoas - é um dos maiores desafios deste início de século, tendo em conta a sucessão de acontecimentos dos últimos anos que resultaram na maior crise económica das últimas décadas.
Constâncio chega ao BCE com as economias europeias estagnadas, a lutarem com a subida imparável do desemprego, com as empresas a acusar os bancos de não estarem a dar crédito suficiente à actividade e com a volatilidade a afectar os mercados da dívida pública e cambiais. O futuro membro do conselho executivo do BCE relembra que sempre lutou "pelo projecto europeu e é muito estimulante a possibilidade de o servir mais plenamente num momento tão difícil".
O economista ascende na hierarquia do Eurosistema, mas deixa para trás críticas muito severas à sua actuação enquanto líder do supervisor nacional ao longo de dez anos (entrou em 2000 e foi reconduzido pelo primeiro governo de Sócrates). Os casos BCP, BPN e BPP foram os que mais evidenciaram as falhas do sistema de supervisão, críticas que continua a refutar. "Não somos o KGB, não temos espiões dentro dos bancos", chegou a dizer em relação ao escândalo BPN.
Segundo vários observadores, a vitória de Constâncio deixa o caminho livre para que Axel Weber (um falcão mais hostil à inflação do que o português), hoje presidente do Bundesbank, suba à presidência do BCE quando Jean-Claude Trichet terminar o mandato em Novembro de 2011.


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