PRIMEIRO PLANO

Entre repúblicas

por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 16 de Fevereiro de 2010   
A Terceira República, a actual, pode ser corrupta mas não é violenta. Na União Europeia não há golpes militares
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Os tempos de crise política invocam, irremediavelmente, outros tempos e outras crises. Embora a ignorância média não encoraje grandes exercícios de história comparada, vale a pena, nesta Terceira República, lembrar a primeira. Que este ano até faz cem anos. Tal comemoração tem implícita a admissão do Estado Novo como república, o que parece causar engulhos a alguns dos democratas que a pensaram.
A experiência da Primeira República foi a da violência política como elemento de caracterização e instrumento de mudança. A República começou no 5 de Outubro de 1910 com uma revolução em Lisboa proclamada pelo telégrafo a todo o país, e acabou no 28 de Maio de 1926 com uma revolução de todo o país contra Lisboa.
Um homem, um partido, uma ideologia dominam estes dezasseis anos com mais de cinquenta governos: Afonso Costa, os democráticos, o jacobinismo anticlerical. Costa é o líder republicano por excelência: pessoalmente é um vencedor - o melhor aluno de Coimbra, o melhor e mais bem pago advogado, o primeiro opositor à monarquia, o primeiro político do regime.

Tem as convicções e as ambições marcadas, a determinação e o epicurismo dos homens inteligentes que, de uma vez, dizem não à transcendência e suas inquietações. Contrasta pelas qualidades e defeitos com os outros líderes - com a generosidade retórica de António José de Almeida ou com o conservadorismo céptico de Brito Camacho.
Costa nunca brinca em serviço: legisla em ditadura as leis anti-religiosas; manda vir a casa, julga e deporta o bispo do Porto D. António Barroso; para garantir as eleições, muda a lei eleitoral em 1913, tirando o voto a mais de metade do eleitorado. Assim ganha sempre.
Os seus inimigos concluem que só o tirarão do poder à força. Couceiro tenta as incursões em 1911 e 1912; Manuel de Arriaga e Pimenta de Castro, a ditadura em 1915; Sidónio, o golpe militar e o autoritarismo populista em 1917-18; os monárquicos, a patuleia nortista de 1919. Todos são, também pela violência, vencidos. O sistema estava fechado. Os golpes militares e o barulho das ruas eram o reconhecimento pelos opositores de que os democráticos tinham blindado o sistema e de que só pela força de lá sairiam. Mesmo depois de o chefe, zangado com o povo português que lhe saqueara a casa no sidonismo, ter ficado em Paris e só comandar à distância os acontecimentos.
O 28 de Maio de 1926, com todo o país e todos os partidos contra os democráticos liderados por António Maria da Silva e pelo eterno Bernardino Machado, foi a consequência disto. Não havia outra volta a dar.

P. S. As coisas hoje são diferentes: esta república pode ser corrupta, mas não é violenta; quer dizer, pode roubar mas não mata. Para o melhor e para o pior, Salazar introduziu "os brandos costumes". E na União Europeia não há golpes militares.

Professor universitário


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