Património

Campo Maior. Onde a chuva levou a muralha e o chão a 50 famílias de ciganos - vídeo

por Mariana de Araújo Barbosa, Publicado em 16 de Fevereiro de 2010   
Parte da muralha da vila caiu a 5 de Janeiro. Mais de 50 famílias vivem numa zona em risco de nova derrocada. Dentro de barracas
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Quando Martien nascer, daqui a três meses, talvez ainda conheça o frio da barraca onde a mãe, Bela, passou toda a gravidez. Bela vive com o marido, os sogros e três cunhados no topo da muralha de Campo Maior. A vista de Mártir Santo sobre a vila da raia alentejana é bonita quando se espreita por entre as pedras do muro velho. Mas a realidade dali não é da cor das roupas que secam nos estendais improvisados. "Lava-se o primeiro para ir para a escola e quando vem o último já o primeiro está cheio de lama", conta ao i Hermínia, 68 anos, viúva e habituada à antiga rotina de sete filhos criados. Vestida de negro, espera que as batatas fritas cozinhem no fogareiro, a céu aberto. "Em vez de vir aqui tirar fotografias dê-me dinheiro para comprar um fogão, menina", avisa.
O chão de lama suporta as placas de madeira e de metal, alicerces frágeis dos telhados de plástico. Alguns voaram e caíram na madrugada de 5 de Janeiro. Com eles, parte de algumas barracas que servem de casa a uma comunidade de ciganos com mais de 200 pessoas, metade crianças. A chuva intensa antecipou o inevitável. "A muralha foi construída através de um fosso, que lhe serve de suporte. Como vive gente lá em cima, que usa água corrente e a despeja sobre o aterro, a chuva só precipitou a inevitável derrocada", explica ao i Francisco Galego, especialista na fortificação de. Campo Maior.
Representantes da Protecção Civil de Portalegre e da câmara de Campo Maior foram ao local no mesmo dia e garantiram às famílias que lá vivem um local seguro, o mais rapidamente possível. Nessa noite, Bela e o marido dormiram em casa da mãe dela. Os sogros e os cunhados dividiram-se pelas barracas dos vizinhos.


Barracas "Não ligue à desarrumação", sorri Andreia, olhos verdes, envergonhada, enquanto faz sinal para entrar na "casa" com o chão cimentado. "Acabei de chegar", justifica. Vários serviços de porcelana impecavelmente arrumados numa mesa de madeira encostada à parede contrastam com a cama ainda por fazer, mesmo ao lado da mesa de refeição, com as pernas bambas e tombadas para o lado esquerdo. O espaço amplo revela os pormenores: o fogão, as pegas penduradas na parede, um arco de pedra - "quase a cair, vê?" - que pertence à muralha, mesmo à beira do precipício. A conversa é interrompida por Bela, que espreita à porta, de mão na barriga coberta pelo casaco roxo de lã, com a curiosidade dos 17 anos. "Martien é bonito, não é?", pergunta. Lá fora, do outro lado do caminho de lama, Domingas e António Cardoso mandam os dois filhos para a escola. "Está na hora, gaiatos." Domingas vive ali há 28 anos. Desde que nasceu. "Há vontade mas não há casco", lamenta António, já acomodado à ideia de que os "mil e tal contos" por contentor hão-de tardar.

Mártir Santo O topo da muralha do castelo de Campo Maior parece uma manta de cores pintada de retalhos de plástico, madeira e metal. "Não está por aí o meu menino?", grita uma mulher. Lá ao fundo, Vicente da Conceição Grilo diz que não com a cabeça. Sentado na cadeira onde vê televisão, levanta os grandes olhos e bate com as galochas que traz calçadas no chão. "Isto é assim há 50 anos", lamenta. "Primeiro o Nabeiro, depois o Guerra. Já são três ou quatro os presidentes que nos prometem casas, ou contentores. E nada. Este [Ricardo Pinheiro, eleito nas últimas autárquicas] parece realmente empenhado. Vamos esperar para ver. Daqui não vamos sem termos outra coisa", assegura ao i. Vicente fala de maneira diferente. Trabalha na câmara municipal e é um porta-voz daquele pedaço de terra, com veios de água que parecem pequenos rios onde as crianças de chinelos insistem em molhar os pés. "Primeiro disseram que iam realojar famílias de nove barracas, mas o governo quis dar só quatro contentores e a câmara não quis. Agora diz que quando for um, vamos todos", explica Vicente.

Solução à vista? "Foi apresentada uma proposta de seis pré-fabricados, para as famílias mais afectadas pela queda da muralha. Um investimento de 15 mil euros cada, com gastos suportados pela autarquia, pela Segurança Social e pela Protecção Civil. Mas a proposta não agradou", esclarece ao i Ricardo Pinheiro, presidente da câmara de Campo Maior, lamentando que o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) tenha, à partida, excluído uma "solução provisória". "O governo é responsável pelo risco que correm as famílias, e também pela conservação de um património histórico que pertence ao país. A administração central tem deixado de investir no Alentejo", critica o presidente da câmara. Na semana passada, a Alta Comissária para a Igualdade e Diálogo Intercultural (ACIDI), Rosário Farmhouse, visitou o Mártir Santo e anunciou a criação de uma equipa de trabalho dedicada ao realojamento das famílias da comunidade, que reúne esta sexta-feira. "É a oportunidade que a câmara não deve desperdiçar, por isso acho que não ficaremos por uma reunião única. Um problema com mais de 20 anos não se resolve numa reunião", esclarece Ricardo Pinheiro.

Cama de altar A parede branca, ainda de pé, tem um número 46 escrito com tinta amarela. "Foi o presidente que escreveu", conta o João, 11 anos - "12 a 5 de Março", insiste. "Está quase." Ao lado, Maria, 10 anos, diz que sim com a cabeça. A pele morena da cara está coberta por um pó cor-de-rosa. Sombra dos olhos. "Ela faz triatlo", explica João. "Anda de bicicleta?", questiono. "Não, não. É aquilo no palco". "Ah, teatro. Teatro." Dizem que sim. E Maria conta porque não foi à escola. "A minha mãe acordou tarde."
"Os gaiatos precisam de escola", diz Lurdes Piedade. "Vê-se logo que são diferentes quando estudam", analisa. Lurdes teve seis filhos. Empurra a porta da igreja, já retirada da calha e presa com cordas à parede "para os gatos não virem para aqui". "Estávamos lá fora ao lume quando o telhado caiu. Foi a nossa sorte. Tínhamos aqui ficado", conta. O telhado da igreja de S. Sebastião, no alto da muralha, caiu ainda antes da chuvada que derrubou parte do monumento, e obrigou Lurdes a mudar da igreja, onde vivia, para uma barraca ao lado. Um mês depois do acidente, Lurdes continua a lamentar a vida. "Isto pode cair a qualquer momento e ficamos todos aqui". Mas sorri quando fala das filhas, que "estão muito bem, em casas que a câmara deu". Em Campo Maior? "Não, não. Elas estão em Elvas", esclarece.
A muralha de Elvas está a ser recuperada para uma candidatura a Património Mundial da UNESCO. Na de Campo Maior, 87 crianças brincam em locais "vedados com fitas", um duplo problema admitido por Ricardo Pinheiro. "É social e de conservação de património", sublinha. "Há 50 anos viviam aqui 15 famílias. Agora, são bem mais de 50. Casais com dois, três, quatro filhos. Alguns sete e oito filhos", interrompe Vicente. João aproxima-se. Maria despede-se. Está atrasada para o ensaio de teatro. "Darem-nos as casas amanhã? Isso é que era", sorri.



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