Nova biografia revela que a paixão pelas crianças - e a vontade de as ajudar - quase levaram à bancarrota o autor do clássico centrado em Alice
O seguinte conto poderia ser uma genial manobra de marketing. Mas garante o jornal britânico "
The Times", na sua edição de domingo, que se trata de matéria factual, confirmada junto das instituições bancárias competentes para o efeito.
Lewis Carroll, genial
autor das histórias de "
Alice no País das Maravilhas", doou boa parte do seu dinheiro a instituições de caridade e de apoio a
crianças desfavorecidas, chegando a contrair dívidas avultadas com instituições de crédito por esse motivo. É verdade que Carroll criou a mais psicadélica das histórias com infantes como protagonistas, mas, ao que parece, a sua relação com o universo da meninagem tinha uma outra dimensão, bem mais concreta e humana. Nenhuma outra descoberta seria mais acertada, agora que estamos a poucas semanas da estreia da história da tal Alice nos cinemas, com
Johnny Depp no elenco e
Tim Burton a assinar a realização.
A revelação foi feita por
Jenny Woolf, que assinou a mais recente
biografia de Lewis Carroll, texto que pormenoriza até as movimentações bancárias do escritor. O livro - "The
Mystery of Lewis Carroll" - conta como este herói da literatura e, pelos vistos, benfeitor social, tinha pouco estômago para lidar com maus-tratos infantis e crianças abandonadas nas localidades de sotaque britânico. A solução que lhe serviu melhor a vontade - mas nem sempre os bolsos - foi doar boa parte do seu rendimento a instituições de apoio a menores em dificuldades. Jenny Woolf garante que se tratava de 30 organizações diferentes por ano. Resultado: o gestor de conta de Carroll acabou por impor um limite a tais operações, obrigando o escritor (e titular do dinheiro em questão) a requisitar autorização para utilizar as suas poupanças pessoais. Para termos uma ideia das contas que Lewis Carroll deixava para o seu contabilista, recordemos que o escritor ganhava qualquer coisa como 300 libras por ano (valores da altura, resultado do seu emprego fixo de professor de matemática) e gastava pelo menos 50 só nas acções de caridade que tanto prezava. Chegou a dever o que hoje corresponde a 25 mil euros.
Este amor pela causa infantil, já conhecido mas agora reforçado, foi bem recebido pelos que defendem Lewis Carroll em face das acusações de pedofilia que têm acompanhado a sua reputação desde o final do século XIX. Os críticos do escritor fazem questão de recordar que Carroll tinha um gosto pouco habitual por desenhar e fotografar crianças nuas e que terá mesmo desejado casar-se com Alice Liddell, de 11 anos, filha do reitor da sua universidade, menina que teria (contam os relatos históricos mais poéticos) inspirado a criação da personagem com idêntico primeiro nome. O argumento dos que defendem o escritor inglês é óbvio: o abusador nunca poderia ser o benfeitor. Ficará tudo por provar, com Lewis Carroll a manter-se no apropriado papel de autor enigmático do País das Maravilhas.
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