Os sistemas de obtenção de sangue assentes na dádiva costumam ser bem mais eficazes que os sistemas comerciais
O PRESIDENTE DO INSTITUTO Português do Sangue lançou um alerta e fez um apelo: por razões aparentemente pontuais, as
reservas de sangue existentes apenas cobrem as necessidades de dois dias das unidades de saúde e por isso é ainda mais imprescindível que os cidadãos, em especial os da
Grande Lisboa, exercitem a virtude
cívica e dêem sangue. Não pode faltar sangue para quem dele necessita. Os portugueses até são relativamente mais generosos do que a média da
União Europeia e o país até costuma ser auto-suficiente.
Dádiva, necessidade, virtude. Estas palavras florescem no espaço público. A provisão de um dos bens mais preciosos para a vida humana é geralmente deixada a práticas e motivações que recusam as disposições e os instrumentos típicos das relações mercantis: egoísmo, incentivos pecuniários ou preferências suportadas por dinheiro. Mais curioso ainda, estou convencido de que só um determinado tipo de economista se lembraria de questionar uma forma de provisão que parece tão natural para a maioria dos cidadãos: de cada um segundo a sua generosidade e possibilidade, a cada um segundo a sua necessidade. Nem tudo está à venda.
Em "The Gift Relationship" (A Relação da Dádiva), um livro já clássico e sempre polémico sobre estas questões, o sociólogo britânico Richard Titmuss concluiu, contras as prescrições preconceituosas dos que querem reduzir as pessoas a egoístas movidos a dinheiro, que os sistemas de obtenção de
sangue assentes na dádiva são bem mais eficazes que os sistemas comerciais.
Não existem sistemas perfeitos, claro, mas intrometer dinheiro parece corroer as motivações intrínsecas e levar à deterioração e diminuição da oferta de sangue.
No entanto, a mensagem de Titmuss, na boa tradição comunitarista do socialismo ético, uma das fontes intelectuais do
Estado Social, em geral, e do
Serviço Nacional de Saúde, em particular, é mais profunda: são a quantidade e a qualidade das relações não-mercantis, sobretudo com os outros que nos são estranhos, que permitem conjugar a primeira pessoa do plural de que depende uma comunidade política. Um espaço público robusto, que não se limita às instituições estatais, alimenta a confiança social e diz o que somos: por isso é moralmente tão importante remover as discriminações sem fundamentação científica nem sanitária que o ensombram, como a que dificulta a doação de sangue por parte de homossexuais.
Numa época que se diz de crise das instituições, os cidadãos, todos os cidadãos, devem saber que, em muitas áreas, a provisão depende da sua virtude. Uma comunidade política é uma economia moral que recusa a neutralidade e a apatia. Depende de nós.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
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