Exposição

Longo. Arte abstracta também se faz com tubarões e bombas

por Vanda Marques , Publicado em 15 de Fevereiro de 2010   
Tornou-se artista plástico porque não sabia fazer mais nada.Robert Longo apresenta uma retrospectiva no Museu Berardo
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Robert Longo não se distingue facilmente no meio da azáfama do Museu Berardo, em Lisboa. Passeia pelos corredores sem ninguém reparar nele. No piso zero, entre caixas, pregos e obras por pendurar, parece mais um trabalhador do museu. Sem tiques de estrela, o artista que namorou com a fotógrafa Cindy Sherman e na década de 80 era um dos americanos mais falados no mundo da arte, supervisiona toda a montagem da exposição "Roberto Longo - Uma Retrospectiva".

Chega vestido de preto, com os inconfundíveis óculos de massa e um cabelo volumoso. "De Portugal ainda só conheço estas três salas", diz, enquanto nos pede um cigarro. "Só fumo quando estou na Europa." Talvez a culpa seja dos ares liberais do Velho Continente, ou do nervosismo. Mas se é para fumar que seja com um cigarro a sério, e não os fininhos slims brancos. "Parecem de chocolate", observa Robert Longo. É um dos trabalhadores do museu que lhe oferece o cigarro que inicia a conversa com o i no exterior do edifício, onde enfrentamos os 8 graus que assaltaram a capital de surpresa na sexta-feira.

Retrospectiva A exposição que abre hoje ao público e se prolonga até 25 de Abril esteve em Nice no museu MAMAC. Mas em Lisboa vamos ter uma oportunidade única: a organização das obras foi feita de propósito para esta sala. "Quis aproveitar a altura das paredes e pedi para fazer algumas alterações. Aceitaram tudo, o que é raro", diz Robert. Não se trata de uma mostra organizada por datas. "O local é um veículo do significado da obra. Estou muito ciente dos reflexos que cada quadro tem no outro e joguei com isso. Os homens de "Men in the Cities" reflectem-se no tubarão, que é um assassino. As peças falam umas para as outras."

Quanto a mensagens da obra, Robert Longo, natural de Brooklyn, deixa tudo muito claro. "Se conseguisse verbalizar o que quero transmitir, porque faria arte? Há três coisas que as palavras não conseguem descrever: lutas, sexo e arte."

A obra que popularizou o norte-americano, que em miúdo queria ser jogador profissional de futebol americano ou surfista e acabou por ser artista porque "não conseguia fazer mais nada", foi a série "Men in the Cities" (1978-82). "Não pensava muito na ideia da obra, estava a reagir ao filme 'The American Soldier' e à violência da televisão e do cinema. Pedi a amigos que servissem de modelos. Levava-os para o meu telhado e atirava-lhes bolas de ténis para que se movessem e fotografava-os. Depois desenhei-os. As pessoas diziam que nesta série parecia que as pessoas estavam a dançar ou a morrer, o que não está longe da verdade. Era assim que se dançava nos clubes punk, e também tinha em mente um jogo de crianças em que ganhava quem fingia que 'morria' da melhor maneira."

As fotografias sempre foram essenciais na obra de Robert Longo; são o ponto de partida para o desenho a carvão. "Sou um artista abstracto a pintar de forma representativa. O que desenho são símbolos, não são representações." Nesta exposição só vemos obras a preto e branco, mas Robert quer trabalhar com cor e está a aprender a pintar. "Estou a matar-me com desenhos a carvão e a mina de grafite, porque não uso máscara. É como trabalhar numa mina."

Ao entrar na sala impressiona a intensidade das obras e o seu tamanho. Os temas são tão variados como rosas, bombas, armas ou religião. Mas não estão assim tão afastados. "A arte é encontrar o equilíbrio entre o que existe no mundo, a política, a sociedade e as coisas que me são próximas." Um exemplo claro. Robert Longo diz que até ter filhos era um homem do mundo, tocava em bandas rock - isso ainda acontece esporadicamente - e sabia o que se passava nas ruas. Depois teve filhos e agora são eles que lhe levam o mundo casa adentro. "Costumo jogar basquetebol com o meu filho mais velho, mas um dia não consegui ir e quando ele voltou estava muito entusiasmado. Tinha havido uma briga entre miúdos e um sacou de uma pistola. Fucking horrible." A experiência levou-o para uma nova área de trabalho: as armas. "Quando tenho um tema, torno-me um especialista. Liguei para o FBI e descobri quais eram as armas mais usadas e fiz uma série baseada nelas. É um problema nos EUA. Não digo se são boas ou más. Cada um terá as suas ideias."


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