Editorial
Sócrates e a informação
por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 13 de Fevereiro de 2010
O problema da informação é que não tem o mesmo valor simultaneamente para toda a gente, o que explica muitas vezes que se tomem decisões erradas
Quando uma situação parece evidente, raramente o é ao mesmo tempo para o maior número de pessoas. Este é um dos mais terríveis paradoxos da economia e, de alguma maneira, da própria política. Essa assimetria de percepção (ou informação) leva quase sempre a decisões com custos terríveis.
Há mais de um ano que a comunicação social vem revelando histórias que envolvem políticos e os seus caracteres Boa parte delas envolve José Sócrates, sobretudo antes de ter sido eleito primeiro-ministro. Em Julho, o i revelou a operação política em que a PT adquiria a TVI aos espanhóis. Foi uma notícia importante - o primeiro-ministro surgiu na manhã seguinte a dizer que vetaria o negócio. Mas nem todos lhe atribuíram imediatamente igual importância. Quando se verifica esta assimetria de percepção (ou informação), há uma tendência natural para as decisões serem ajustadas a um qualquer comportamento médio que valoriza em medidas semelhantes o certo e o errado.
Um economista americano explicou bem este comportamento usando limões para tornar evidentes os custos dessas assimetrias. George Akerlof dizia que quando alguém compra um carro em segunda mão não sabe realmente se está a fazer um bom negócio ou um mau negócio - se leva um carro bom ou mau, isto é, se compra cereja ou limão. É por isso que, na verdade, não vale a pena cuidar muito bem de um carro que se pretende vender - ninguém pagará esse preço extra porque realmente ninguém pode dizer se o carro foi verdadeiramente estimado. E então o mercado ajusta os preços todos a meio caminho. Esta teoria (the market for lemons) deu a Akerlof e ao mais conhecido Joseph Stiglitz o Nobel da Economia em 2001. E ajuda a perceber por que razão as notícias levam tanto tempo a ter impacto sobre quem as recebe.
Há mais de um ano que era evidente para a generalidade da imprensa que os métodos usados pela equipa que acompanha José Sócrates em São Bento não eram os mais adequados. Foi por essa altura que muitos jornais explicaram que pressões sempre existiram - distinguiam-se aqueles que se deixavam ou não influenciar por elas. Poucos ligaram. Depois veio Ferreira Leite falar em asfixia democrática. A sua crítica era de tal modo genérica (para os menos informados) que foi como dizer o meu carro usado é bom. Seria mesmo? Somando tudo, os eleitores portugueses olharam para as eleições como olham para o mercado de carros usados - sei lá se é limão ou cereja... Poderia a líder do PSD ter revelado mais nessa altura? Talvez não - mas estes são os custos de sublinhar problemas (asfixia democrática) que não são percepcionados por todos de igual forma e ao mesmo tempo. Essa assimetria, hoje, está a diminuir. Nada é ainda claro como água - mas as pessoas estão a entender que sim.
José Sócrates, como outro primeiro-ministro, carrega agora a responsabilidade de resgatar Portugal à crise. Mas Sócrates está em crise. Como está em crise um treinador de futebol cuja equipa não ganha. Na bola é simples: sem chicotada psicológica não vai lá. Muitas vezes na política é tudo assim, igualmente simples.
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