Uma equipa de crianças do Social Olímpico Ferroviário, de Belo Horizonte, chega a Londres. “Olha a terra da rainha. E do Ronaldo”, diz um dos miúdos. E de Quaresma, já agora. O jogador do Chelsea não se cruzou com um taxista travesti nem com um anúncio de praia num hotel perto mas, mesmo junto ao estádio, chega bem disposto ao Mediterranean Hotel. Veio de fato-de-treino. Ao seu estilo: brincos, anéis, fio, relógio. Tudo tem diamantes. Até um dos dentes tem uma pequena pedra. Mas a carreira já teve mais brilho.
Como está a situação no Chelsea? Fez cinco jogos e depois desapareceu.
São situações que não consigo explicar. Opções de treinadores. Não posso explicar porque não percebi. É assim.
Depois do insucesso no Inter, apostar no Chelsea e acabar nas reservas era tudo o que não pensava…
Nunca pensei ir para algum clube e passar aquilo que passei este ano. Sei o valor que tenho, acredito muito em mim e sei o que posso fazer no futebol mas durante a época passou-se muita coisa que não vou comentar, mas houve situações muito estranhas que me colocaram de fora.
A troca de treinadores é suficiente para justificar o eclipse?É difícil dizer que jogaria se estivesse cá o Scolari. Provavelmente, se Scolari ainda cá estivesse as coisas seriam diferentes mas também dependeria do meu rendimento. Trabalho sempre da mesma maneira e nenhum treinador me pode acusar de falta de empenho. Vou sempre à procura das minhas oportunidades e quando alinhei no Chelsea joguei bem. Quando um treinador novo entra, é normal que coloque jogadores que conheça melhor e que são do clube.
É internacional português, já ganhou títulos, tem um golo no topo dos mais vistos no YouTube [trivela no Portugal-Bélgica]. Como é jogar pelas reservas?
É horrível estar habituado a jogar e a ser um ídolo, a ganhar e depois passar pelo que estou a passar. Claro que não vou dizer que é bom mas às vezes faz-nos bem, faz-nos crescer e ver o que é o futebol: quando estás bem toda a gente se lembra de ti, quando passas depois por estas situações esquecem-se de nós…
Os portugueses são uma boa almofada para o actual momento?Almofada não, porque não preciso. Tenho 25 anos e não é por uma má época que vou acabar a carreira. Mas claro que me têm ajudado, até pela cidade e qualquer coisa que precise. Mas ainda não estou morto para precisar já de almofadas…
Mesmo assim, conhece o balneário do Chelsea. Como é que os jogadores lidaram com a eliminação na Champions frente ao Barcelona no último minuto e num jogo marcado por erros de arbitragem?É difícil não ir a uma final por um golo no último minuto. Eu, que não joguei, senti-me mal, agora imagine os que estão em campo e estavam a contar com a vitória… É difícil mas os jogadores do Chelsea são experientes e sabem lidar com essas situações. Não vou dizer que o ambiente estava bom porque estaria a mentir, mas sabem lidar bem com isso.
Voltando ao início da época. Quando é contratado para o Inter, fica clara a ideia de José Mourinho contar com jogadores para dois sistemas tácticos mas o 4x3x3 foi caindo com o tempo. O que mudou para isso acontecer?Sinceramente, não percebi. Durante o tempo em que estive no Inter, passaram--se muitas coisas que não percebi, coisas que ainda hoje tento perceber mas que nem quero pensar mais nesta altura…
Arrependeu-se de ter ido para o Inter?Para ser sincero, sim. Arrependi-me.
Por não ter jogado, pelo clube, pelos jogadores ou pelo treinador?Não, é um grande clube. Não há dúvida. Mas se eu soubesse o que sei hoje e que ia passar pelo que passei não tinha feito tanta guerra nem tinha entrado em guerra com tantas pessoas que se calhar não mereciam...
Então arrepende-se de quê? Do tipo de futebol?Não, do futebol também não… Uma pessoa que faz tanta guerra para contar comigo e depois não dá oportunidades nem a confiança que pensava que ia ter… É nisso que penso mas também não quero falar agora nem de treinador nem das situações porque passei. Para mim, e acima de tudo, foi uma época horrível. Das piores ou mesmo a pior que já tive. Agora só tenho de levantar a cabeça porque no próximo ano vai correr melhor.
Acaba por ser quase um ponto em que procura uma segunda vida...Temos de olhar sempre para a frente porque, caso contrário, o melhor seria abandonar o futebol. Tenho de pensar que para o ano vai ser melhor porque se não for assim ando aqui a mais… Agora, nunca esperei passar por tantas dificuldades. Quando fui para o Inter, sabia que ia ser difícil porque não tive pré-temporada e outras coisas importantes para um jogador. Mas isso não é desculpa. A forma vai-se ganhando mas a jogar. Um treino não tem nada a ver com os jogos, que são mais competitivos. Mas, por agora, não quero revelar outras coisas.
No meio de uma época tão má, foi importante trabalhar quatro meses com o Figo?O Luís sempre foi um ídolo, uma referência. Agora que joguei e treinei todos os dias com ele ainda o admiro mais. Não só como jogador mas sobretudo como pessoa porque ajudou-me bastante em Milão. Agradeço-lhe pela atenção que teve comigo e por todo o carinho que me deu. Não posso esquecer o que fez por mim na fase que estava a passar.
Vai celebrar o título do Inter?Ir lá não vou, de certeza… Não estou com a equipa, não ia lá fazer nada…
Sente que contribuiu para o título?O título de campeão ninguém me pode tirar, disso podem ter a certeza. Mas não me sinto campeão, confesso…
Qual é a ideia que tem de Balottelli? É um jogador mimado ou um atleta especial que pode vir a ser um dos melhores do mundo?Pode vir a ser um dos melhores do mundo?
Acha que já é?Não sei [risos] Não sei, como o futebol está diferente... Pode vir a dar muito ao futebol mas considerar que pode ser um dos melhores do mundo.
José Mourinho é o melhor treinador do mundo?
É um grande treinador. Se é o melhor… Acho que existem muitos como ele, que têm grande qualidade e que também fazem trabalhos bons.
E agora, o futuro? Fala-se que o Chelsea não vai comprar o seu passe e que o Inter está disposto a negociá-lo. O que conhece da situação?
Sei que a minha vida se vai resolver. Para onde vou ou não são situações que tenho falado com o meu empresário. Não estou preocupado porque sempre pus as coisas nas mãos de Jorge Mendes e sempre me resolveu a vida da melhor forma. Estou tranquilo.
Mas Inter e Chelsea não são hipóteses?Não está resolvido. Tenho contrato com o Inter, o Chelsea não me disse nada. No final da época logo se verá.
Mas existe alguma preferência de clube ou campeonato?Não penso em campeonatos ou clubes. Quero ir para uma equipa onde possa jogar e mostrar – não que tenha de mostrar alguma coisa a alguém, porque todos sabem o valor que tenho – às pessoas que gostam de pôr a dúvida se sou jogador só da liga portuguesa. Mas quero é jogar e estar num bom clube
Falou-se do interesse do Benfica na sua contratação. Até hoje, só sete jogadores representaram os três grandes de Portugal. É você a oitava maravilha?Não, não, não…
Então?Quero continuar no estrangeiro porque em Portugal já fiz o que tinha a fazer. Quero triunfar fora de Portugal. Tenho objectivos, vou cumpri-los e sei que só no estrangeiro vou conseguir lá chegar. Por isso, não vou voltar para Portugal para já.
Com dez anos, estava entre o karaté, o hóquei em patins e o futebol. Tem saudades desses tempos?
Por acaso já não ando à porrada há muito tempo [risos]. De hóquei não tenho saudades, nem vejo quando passa na TV. Karaté sempre gostei, sempre fui um miúdo que andava sempre à pancada na rua ou na escola, também pelo ambiente e colegas que tinha.
Faz as camadas jovens, é campeão europeu de sub-16 no mesmo dia em que o Sporting quebra o jejum de títulos, em 2000, e aparece na equipa do último campeonato (2002). Foi um dos momentos mais marcantes jogar naquela equipa?
Claro. Era um miúdo, via sempre o Sporting na TV, todos aqueles jogadores. Foi um orgulho enorme jogar com João Vieira Pinto, Jardel, Pedro Barbosa, Rui Jorge, Paulo Bento, Rui Bento, Sá Pinto… Quando cheguei pela primeira vez ao balneário, lembro-me de ficar em pé porque todos os cacifos estavam ocupados. Esperei que alguém me viesse buscar porque não me queria sentar no lugar de nenhum craque.
E quem veio?O Beto e o Pedro Barbosa, que eram os capitães de equipa. Mandaram-me sentar ao pé do Paulo Bento, entre ele e o César Prates. Todos me ajudaram muito.
O Jardel faz uma época estrondosa mas teve uma série de problemas, incluindo álcool e drogas. Como é ver um ex-companheiro atravessar um mau período?
Cada um tem que saber o que faz e tem de saber com quem anda. É difícil para quem está no mundo do futebol ver colegas de profissão a caírem nesse estado, a acabarem assim uma carreira brilhante. Mas cada um sabe o que faz, cada um faz o que quer, até porque ele já não era nenhuma criança. Se me falarem de um jovem que estava a aparecer e se meteu nisso, até se compreendia porque às vezes o dinheiro e a fama alteram as pessoas. Agora, o Jardel já não era nenhum jovem e não lhe faltava nada… É complicado ver uma pessoa que dava gosto observar em campo passar uma fase assim.
Na época seguinte, o Sporting faz um campeonato mau mas tinha na mesma equipa Quaresma e Cristiano Ronaldo. O que podia ter acontecido se não tivessem saído os dois no mesmo ano?
É um orgulho, para mim e para o Ronaldo, saber que as pessoas não se esquecem de nós e tinham prazer de nos ver jogar. Agora, não posso dizer que podíamos ser campeões. Depende da época, dos momentos dos jogadores… Mas se continuássemos, podíamos fazer coisas bonitas, isso era certo.
Quando Cristiano Ronaldo deixou de ser o menino protegido do balneário. Alguma vez teve ciúmes por essa situação?Não, não… [risos] Uma vez perguntaram--me se eu tinha ciúme do Ronaldo. Sinceramente pensei em duas coisas: ou responder mal ou não responder. Ciúme nunca tive, nem do Ronaldo nem de ninguém!
Mas nunca sentiu que tinha deixado de ser o protegido?Isso é normal. Se não fosse assim, como seria com os que estão a aparecer? Ainda para mais eu, que gosto muito de ajudar os mais novos tal como fizeram comigo. Em relação aos ciúmes, fico muito contente por ver o Cristiano onde está mas nunca me achei com menos talento ou com menos valor do que alguém. Olho para o futebol e vejo os jogadores mais falados do mundo do futebol a jogarem e penso que também faço o que eles fazem. Nunca me achei nem menos nem mais do que ninguém.
Já disse que era o melhor do mundo.
Era a brincar, Perguntaram-me quem era o melhor do mundo e respondi que era eu. Mas era na brincadeira, só isso. Pensaram logo que estava a falar a sério. Sinceramente, eu não posso pensar numa coisa onde ainda não cheguei. Um dia que chegue a esse estatuto vou admitir que sou o melhor do mundo.
Mas acredita que vai lá chegar?Acredito porque sei o valor que tenho e sei o que posso fazer. Quando olho para o futebol, vejo os grandes jogadores e os melhores do mundo fazerem coisas que eu também sei fazer. Por isso, não fico surpreendido com o que eles fazem…
Chega ao Barcelona e voltam a chama-lo de touro por causa dos testes físicos. No entanto, acabou por sair no final da época. O que é que correu mal?
Aí era ainda muito jovem e não estava ainda preparado para passar pelo que passei. E o Barcelona é um clube que não tem muita paciência com os jovens, quem entra tem de mostrar logo os resultados que eles querem. Mas não me queixo muito,
Tive um conflito com o treinador mas não ponho a culpa nele, se calhar também era muito miúdo e fiz e disse coisas que não devia. Mas vamos crescendo com os erros.
Porque saiu?
Porque pedi ao Jorge Mendes para resolver a minha vida. O Barcelona nunca me disse que queria que fosse embora, pelo contrário, até queriam que continuasse. Mas queria jogar e a situação com o treinador tirou-me ambiente para ficar
Então não guarda rancor de Rijkaard…Não, nada. No início, fiquei chateado mas agora, pensando bem, tenho noção que a culpa não foi só dele.
O Barcelona ainda lhe está atravessado?
Ainda está, porque é um grande clube e onde sei que tinha tudo para triunfar e brilhar. De um momento para o outro, isso desapareceu. Vim-me embora e sei que podia ter feito ainda muita coisa.
Chega ao FC Porto. Vêm os títulos, os golos e as boas exibições. O que recorda mais? Ser figura de uma equipa que só ganhava ou os assobios?
Aos adeptos, sempre agradeci e agradeço todo o amor e carinho. Mas os do FC Porto são dos melhores do mundo mas complicados porque, por muito que amem, se tiverem de assobiar não têm problemas. Mesmo sabendo que eles me adoravam. O que me irritava mais nem eram os assobios. Agora ouvir assobios na minha própria casa é que não… É a mesma coisa que chegar a casa e a mulher ou namorada começar a discutir connosco do nada…
O FC Porto era a minha segunda casa e foi um clube que me ensinou a amar. Voltei a demonstrar o que sou, ganhei títulos, fora dos adeptos era tratado quase como um rei ou um menino-bonito da cidade. Ainda hoje é assim.
Como foi a relação com Pinto da Costa? É ele o segredo das conquistas?
Não tenho dúvidas nenhumas! Mesmo tendo grandes jogadores e treinadores, o maior segredo daquele clube é o presidente. É um homem que respeito muito por toda a confiança e carinho que sempre me deu. Além de ser uma grande pessoa, há poucos, muito poucos como ele enquanto presidentes.
Foi agora pré-convocado para a selecção. O que está à espera numa altura em que não é opção regular no Chelsea? Ainda é possível chegar ao Mundial?
Não é por estar a ter uma época melhor ou pior que não vou à selecção, porque se olharmos para os convocados há muitos que não jogam nos clubes e estão lá. Por isso, se não vou é por opção do treinador. Se vamos ao Mundial? Acho que é difícil. Facilitámos muito mas a culpa é de todos nós, podíamos ter dado mais. Mas, sinceramente, não estou a pensar ir agora à selecção…
Mas não sente a confiança do treinador?Não tem a ver com isso.
Qual é a justificação para isso?
Não sei, não tenho, nunca me disseram. Eu também nunca peço justificações, cada um faz e diz o que quer. Mas não me venham com a desculpa de que é por não jogar no Inter ou no Chelsea… Não sei se é decisão do treinador ou não…
Mas Carlos Queiroz tem falado de uma reformulação… Não se sente incluído?
Eu? Acho que não, nunca mais me chamou… Por isso, acho que não posso estar a contar ir à selecção, o que é triste para mim… Mas também não vou estar a chorar, se um dia voltar é porque o técnico acha que tenho valor.
2009/10 vai ser o ano do Quaresma? Ou melhor, tem de ser o ano do Quaresma?
De certeza. Tem e vai ser! Este ano começou tudo mal… Entrei em guerra com pessoas com quem não devia ter entrado, não tive pré-época, tudo o que se passou no Inter… Foi tudo mau mas para o ano vou ter pré-temporada – porque espero resolver a minha vida o mais rápido possível – e fazer com que as pessoas que se riram este ano me vejam de uma forma diferente…
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