Entre hoje e amanhã o avaliador chefe da Christie's vai encontrar-se com 14 portugueses ansiosos. David Warren, 52 anos, vem a Lisboa avaliar de graça jóias e pedras preciosas. O procedimento é habitual, explica pelo telefone ao i, boas-maneiras de um "gentleman", sotaque escocês aligeirado pelos anos em Londres. Os peritos da leiloeira inglesa viajam pelo mundo à caça de preciosidades. Depois, encaminham as melhores para leilões internacionais. "O sítio onde se vende faz uma grande diferença", explica. Chineses e japoneses gostam de diamantes pequenos mas de excelente qualidade. No Médio Oriente, quanto maior, melhor. A qualidade é secundária.
Sabe o que vai encontrar em Portugal?
É sempre uma surpresa, mas há um certo padrão. Prevejo que apareçam alguns diamantes amarelos até uns 15 quilates e muitos outros abaixo disso, algumas esmeraldas bastante grandes mas de qualidade média, e jóias portuguesas dos séculos XVIII e XIX.
Como por exemplo?
Brincos muito compridos - que também se vêem em Espanha.
Quais são os melhores mercados para essas jóias?
Portugal. A Christie's não tem vendas aí, mas aconselharia sempre um cliente a vender uma peça dessas localmente.
Acontece muitas vezes aparecer-lhe uma peça excepcional?
De vez em quando. Mas o mais frequente - cerca de 60% das vezes - é ver coisas que nem sequer são suficientemente boas para a Christie's. Têm de valer pelo menos 10 mil dólares [€7,2 mil].
E o contrário: peças falsas?
A maior parte das pessoas estão bem informadas em relação ao que têm, mas há sempre situações desagradáveis. Já tive gente muito desiludida.
Como é que lhes dá a notícia?
Digo-lhes imediatamente: "tenho muita pena, mas na verdade isto é um rubi sintético". Eles respondem, "É impossível. Tem pelo menos 50 anos". Então eu informo que os primeiros rubis sintéticos foram feitos no início do século XX. É frequente dizerem, "isto era uma peça da minha avó que a comprou durante a guerra". Explico-lhes que durante a guerra muitas das empresas que traziam rubis e safiras da Índia e do Sri Lanka para Inglaterra deixaram de o fazer. Os joalheiros continuaram a fazer as jóias, mas com pedras de menor qualidade ou mesmo falsas. Não é impossível ter uma peça muito bonita, por exemplo um relógio dos anos 50, com rubis falsos.
E é fácil perceber se uma pedra é falsa?
Temos de ver com uma amplificação bastante grande, mas detectar uma coisa dessas é muito simples.
Há truques que se possam ensinar a qualquer pessoa?
Os testes são diferentes consoante as pedras. Por exemplo, um rubi sintético: a maior parte são feitos através do processo [do químico francês Auguste] Verneuil. Se olhar através de uma lente, vai ver linhas muito ténues dentro do rubi e bolhinhas de gás, às vezes dentro de uma nuvem. A cor de uma pedra sintética tende a não ser muito precisa. O vermelho é demasiado intenso.
Com a tecnologia actual já é possível fazer cópias perfeitas?
Os diamantes falsos que se fazem agora são muito convincentes, sobretudo em tamanhos pequenos.
As jóias são um bom investimento?
É difícil de responder. A maior parte dos joalheiros evita a palavra "investimento". Em primeiro lugar, devem ser encaradas como uma coisa para usar ou oferecer à mulher ou à namorada. Mas posso dizer que se comprar num leilão, fizer os trabalhos de casa, seguir os conselhos dos peritos que lá estão e não começar a licitar como um louco, não deverá correr riscos e até poderá fazer lucro.
É frequente os clientes descontrolarem-se?
Acontece. Mas nós não gostamos. Não queremos clientes que paguem a mais e depois fiquem aborrecidos e nunca mais voltem.
Compra muitas jóias?
Não, porque não tenho tempo para ir a outros leilões e não posso comprar na Christie's porque estaria a usar informação privilegiada.
A sua mulher tem pouca sorte...
Ela tem tudo aquilo de que precisa, não se preocupe. Tenho-lhe comprado coisas ao longo dos anos. Não é uma arca do tesouro, mas é aquilo de que precisa.
Qual foi a peça mais extraordinária que encontrou?
Em 1990, fui convidado para ir à Escócia ver uns diamantes de uma senhora dos seus 70 e poucos anos. Almoçámos, depois ela abriu uma caixa de lata e tirou um extraordinário diamante cor-de-rosa de 32 quilates. Era o diamante de Agra, que pertencera ao imperador [Moghul] Babur, que por sua vez o tinha ganho na batalha de Gawlior em 1526. A pedra passou por muitos imperadores Moghul, deixou a Índia em meados do século XIX, tracei o percurso pelos vários donos europeus até que em 1904 foi vendida no Christie's. Depois desapareceu. Em 1990 vendemo-lo por sete milhões de dólares, o preço mais alto alguma vez pago por um diamante de cor. Foi uma emoção.
E os outros diamantes?
Havia um amarelo de 17 quilates, que depois vendemos por quase 3,5 milhões de euros e se tornou o diamante amarelo mais caro de sempre, um azul de 12 quilates e um alfinete com esmeraldas, que vendemos por 1 milhão de euros. Foi uma tarde e peras. No fim, as minhas pernas pareciam gelatina. Pu-los no bolso e voei para Londres.
Estava a arder, não?
Quase queimavam um buraco no bolso!
Como é que tinha ela estes diamantes?
Herdou-os com 14 anos de um tio que nem conheceu. Ela, a mãe e a irmã foram da Escócia ao funeral em Sussex, no sul de Inglaterra. No fim, foram chamadas pelo advogado, que ia ler o testamento. Elas pensaram, "talvez o tio Louis nos tenha deixado um velho Rolls Royce". Mas não. Eram três caixas de lata cheias de jóias. Para ela ficaram os diamantes, para a irmã rubis e safiras, e para a mãe jóias antigas, incluindo peças que tinham pertencido a Maria Antonieta.
Mas quem era este tio?
Como não é um segredo, digo-lhe. Regra geral não podemos revelar estas coisas. Chamava-se Louis Winans. No final do século XIX construiu com o irmão e o pai a linha de caminhos-de-ferro mais longa da época, de Moscovo a São Petersburgo. Eram uma família americana que ganhou muito dinheiro. Ele, quando se reformou, foi para Sussex. Nunca se casou. Tinha uma casa muito grande. Coleccionava todo o tipo de coisas, incluindo óptimas jóias e pedras preciosas.
A sobrinha sabia o valor dos diamantes?
Sabia que eram bons, mas não tinha ideia. Levámo-los a leilão com valores baixos para excitar o público. Ela queria dar o dinheiro aos netos para comprarem as próprias casas. Foi muito divertido. Toda a família veio assistir. Estavam espantadíssimos. Naquele dia vendemos 8 milhões de euros de jóias - as mesmas que me tinham queimado o bolso.
Há outras histórias como esta?
Não são frequentes, mas há outras. Há relativamente pouco tempo houve outra senhora da Escócia que estava a ficar muito velha. O advogado achou que ela devia começar a vender o recheio da casa. Ainda era criança quando o pai a abandonou. Só voltou a vê-lo com 20 anos. O pai deu-lhe dois anéis e disse apenas "o azul é muito valioso. Toma bem conta dele". Ela não sabia bem o que era e não gostava nada dele. Por isso, pô-lo numa caixa de fósforos em cima da secretária. O anel ficou lá durante uns 60 anos. Acontece que era um diamante azul de cinco ou seis quilates. Vendemo-lo por 2,8 milhões de euros.
Quais são as suas pedras favoritas?
Os diamantes indianos golconda do século XVII são lindos e muito intrigantes. Em 2008 vendemos um deles, o de Wittlesbach, por 18 milhões de euros. Tornou-se o diamante mais caro alguma vez vendido em leilão.
Ainda se encontram na natureza?
Não. Essa região produziu pedras extraordinárias como o diamante Koh-i Nur, que pertence às jóias da coroa inglesa, o "hope diamond" que está no Smithsonian, o diamante de Agra, que a minha velhinha vendeu. Era um recurso extraordinário para diamantes maravilhosos. Mas no final do século XVIII estava esgotado.
Se quiser que David Warren avalie as suas jóias, contacte Mafalda Pereira Coutinho: 919317233, mpc_lisboa@sapo.pt
Pérola laranja
Outro recorde: preço mais elevado em leilão para uma pérola natural de água doce, 520 mil euros. Esta enorme pérola de 60 quilates foi vendida no Dubai. A escolha do mercado certo é decisiva, explica Warren.
Diamante de Agra
Uma das pedras preciosas mais famosas do mundo e a maior surpresa da carreira de David Warren. Encontrou-o nas mãos de uma idosa escocesa, que o herdara de um tio em 1927. No séc. XVI pertenceu ao imperador mogul (actual Índia), Babur, que o usava no turbante. Foi vendido em 1990 por 5 milhões de euros.
Comprar em leilão
• Fazer o TPC: pesquisar em livros, revistas e internet
• Chegar duas horas antes, analisar a colecção e fazer perguntas aos peritos – eles estão lá para ajudar
• Cuidado com os entusiasmos a licitar: os arrependimentos são frequentes
Detectar falsificações
• Em quase todos os casos, um profissional percebe logo se a peça é falsa
• Para as pedras preciosas, basta uma lente que amplifique até 70 vezes. Um rubi sintético, por exemplo, terá linhas ténues e bolhinhas de gás.
• O mais difícil é distinguir entre pérolas naturais e de cultura. Em 5% dos casos é possível um especialista ter dúvidas. É preciso fazer um raio X




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