PRIMEIRO PLANO

Espremer o cliente

por Ricardo Reis, Publicado em 16 de Maio de 2009   
Há bancos que aproveitam todas as oportunidades para levarem "couro e cabelo" aos seus clientes. Quando lhes toca a eles falam em extorsão
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Um conhecido meu tem uma empresa de construção. É essencial neste sector ter empréstimos bancários estáveis para avançar com as obras enquanto se procuram clientes. Há duas semanas, foi chamado a uma reunião num banco. A gerente bancária queria rever as condições de um crédito existente. O spread saltaria de 4% para 10%, e o prazo de pagamento seria antecipado vários meses. O novo contrato já estava preparado, com a data de 1 de Abril, e os novos pagamentos começariam daí a poucos dias.

O cliente ficou em choque. Um spread de 10% não está longe do que cobra um cartão de crédito, e é maior do que impõem os tribunais para dívidas em incumprimento. Antecipar o pagamento de surpresa com investimentos a meio só é possível se deixar de pagar aos trabalhadores. E forçar um contrato com efeitos retroactivos é mesmo ilegal. Mas, se o cliente não assinasse o novo contrato, o banco ameaçava comunicar ao Banco de Portugal o incumprimento do cliente nas suas dívidas, o que levaria à exigência do pagamento de dívidas a outros bancos, condenando a empresa ao colapso.

Este comportamento é quase uma extorsão, não diferente da praticada por agiotas e que levou à proibição da usura nas sociedades modernas.

Os bancos também têm um banqueiro, o Banco Central Europeu (BCE). Quando o BCE baixa a sua taxa de referência, o custo do dinheiro desce para os bancos, que podem investir os novos fundos em duas alternativas. Por um lado, podem depositá-los em reservas no BCE, recebendo em troca uma taxa mínima mas sem risco. Por outro lado, podem passar os fundos para a economia, em empréstimos arriscados mas com bom retorno. Porque a taxa paga nos depósitos no BCE costuma estar bem abaixo da taxa de referência cobrada, manter reservas voluntárias no BCE é perder dinheiro certo. Logo, os bancos só mantêm as reservas obrigatórias por lei, e canalizam todos os novos fundos em empréstimos para a economia. Mas hoje as duas taxas são quase iguais, perto de zero. Por isso, quando o BCE tenta injectar dinheiro na economia, vê-se numa "armadilha de liquidez": se pagam uma taxa zero pelos fundos adicionais, os bancos estão contentes em depositá-los no BCE ganhando um retorno de zero também. Existe uma solução simples para este problema: baixar a taxa paga nas reservas para valores negativos. Os bancos passariam a pagar uma comissão por ter reservas no BCE, e prefeririam novamente fazer empréstimos à economia. Os banqueiros revoltam-se contra esta ideia de serem forçados a pagar por ter depósitos obrigatórios no BCE. Para eles, isto é quase uma extorsão. Pois.

Professor de Economia, Universidade de Columbia

 

 



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