Editorial
Pacheco Pereira, opiniões e factos
por André Macedo, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010
No seu programa da SIC, o deputado do PSD e crítico de media tem apontado vários erros ao i. Um bom gancho para falar de jornalismo
Desconfie das linhas que vai ler. Somos parte interessada no assunto. Pacheco Pereira não gosta do i. Não há programa em que não critique, exponha e sublinhe os erros deste jornal - os que realmente cometemos, mas também os outros, aqueles em que está redondamente enganado. No último programa, na SIC, Pacheco centrou-se num título que demos ao artigo sobre a morte de Rosa Lobato Faria. A nossa escolha foi desinspirada, mas não é esse o tema deste editorial.
Pacheco Pereira é deputado do PSD, cronista do "Público" e da "Sábado", comentador da Quadratura do Círculo, investigador, bloguista e valioso escritor nas horas vagas. Seria excelente se tivesse mais tempo para o que realmente sabe fazer. Há quem diga que também é marketeer partidário e musa inspiradora de Ferreira Leite, embora o título lhe provoque urticária.
Na verdade, Pacheco faz tanta coisa em simultâneo que não é nada de concreto, embora concretamente seja um prazer lê -lo e ouvi-lo, mesmo quando falha - aliás, especialmente quando falha. É mais fácil aprender com os erros dos outros. Se Pacheco tivesse um programa de culinária, teria o mesmo distanciamento crítico a falar sobre vieiras e alheiras que tem quando avalia reportagens e design gráfico. É um mundo que conhece bem, o da imprensa.
Na verdade, com Pacheco é tudo uma grande cataplana e é por isso que gostamos de o ouvir e lhe damos destaque no i. Foi aqui, neste mesmo jornal, que Luís Filipe Menezes lhe chamou "a loira do regime", uma frase injusta que Pacheco escutou com tanta atenção - e emoção - que anulou uma entrevista que já nos dera, mas que ainda não tinha sido publicada. Como é evidente, respeitámos a vontade do entrevistado, embora tenhamos sentido alguma desilusão. Não é todos os dias que nos deparamos com uma fissura numa terrina Vista Alegre que todos querem ter em casa. Um genuíno Pacheco fica sempre bem à mesa. Ou na TV.
Quanto a Pacheco Pereira, é tudo. O importante do que até aqui se escreveu resume-se em poucas palavras: escrever notícias, como se disse neste espaço ontem, não é a melhor maneira de arranjar amigos. Basta encontrar um jornalista cheio de amigalhaços na política, nas empresas ou nos clubes de futebol para concluir que não é bem um jornalista, mas um mau relações públicas com carteira profissional. No fim de contas, perde o leitor, porque a independência é o condimento central do jornalismo.
Apesar de evidente, não é um risco que todas as empresas de media estejam dispostas a correr. Algumas transformam-se em agências de lóbi para sobreviver. O leitor e os espectadores sabem quais são, não precisam do i, do Pacheco Pereira, da ERC ou de uma comissão parlamentar para apontar o dedo acusador. Se há coisa que as pessoas têm hoje é cultura mediática. Distinguir lóbi descarado de informação é um gesto inato à maioria do público. O radar está sempre ligado. Hoje as pessoas estão mais preparadas do que ontem para detectar a fraude. Amanhã estarão ainda mais. O paternalismo do poder político não tem espaço aqui.
O que nos leva ao último ponto. Sócrates tem a pele fina e não gosta de jornalistas. Isso é relevante? Por um lado, sim, porque o torna mais vulnerável - o que é mau num político. Por outro lado, não - excepto se a cólera se transformar em ambição de controlo. É apenas sobre isto que a comissão de inquérito se deve pronunciar. O PS quis usar o Estado para manipular a informação? Aqui exigem-se provas, factos, não opiniões. Nem as do i, nem as melhores de Pacheco Pereira.
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