Alerta amarelo

O mar nunca esteve tão mau neste Inverno

por Nelma Viana, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
Naufrágio de traineira fez ontem um morto e um ferido grave. Um terceiro pescador continua desaparecido
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"Então, Zé, já o encontraram?", ouvia-se do passadiço. "Não pá, o helicóptero anda aí a fazer piscinas, mas não há novidades", gritava João Rosa da beira-mar.

Um morto, um ferido grave e um homem desaparecido. Foi o balanço do naufrágio ocorrido ontem, pelas 8h25, ao largo da Costa de Caparica. O amontoado de curiosos na praia do Sol foi-se dissipando ao longo do dia, mas os mais resistentes mantinham a fé. "Ele vai aparecer...", murmurava-se por lá. Às 18h ainda não havia sinais de vida.

O Delfim, a traineira que ontem naufragou com três homens a bordo, terá levantado âncora ainda de noite. "Foi uma imprudência sair com o mar assim. Eram rapazes de Setúbal, não conheciam as manhas deste lado. Para que é que se meteram nisto?" José Aires Costa não se conforma. Pescador de profissão, lamenta que o mau tempo e o mar revolto não o deixem trabalhar e fala em perdas de mais de 200% em relação ao ano passado. O prejuízo deste Inverno já o obrigou a mexer nas poupanças dos ganhos de Verão. "Desde Novembro trabalhei 20 dias, não chega para comer. No ano passado a lota foi muito boa, das melhores de sempre, mas não me atrevo a ir para o mar assim", conta o pescador ao i. "Há sempre alguém disposto a arriscar a vida por uma rede cheia (de peixe), mas estas coisas fazem pensar e a malta está a bater um bocado mal com isto", diz José Aires Costa, referindo- -se à embarcação perdida ao largo da Costa. Aos 62 anos, desde os 14, "quando acabou a escola primária", que não sabe fazer outra coisa senão pescar. Mas a idade já o impede de fazer as loucuras de outros tempos. "Tenho medo. Não tenho a mesma força e já apanhei sustos que cheguem para uma vida", confessa. Faz agora em Março um ano que este pescador virou a lancha com três homens lá dentro. Acordou duas horas depois no hospital. "O mar não é para todos, por alguma coisa lhe chamam o cemitério dos pescadores", remata. Vira as costas e segue caminho, sempre com os olhos no mar.

Há outros que não temem a fúria das ondas. Prancha de bodyboard debaixo do braço, passo ligeiro e ar de tarefa cumprida, Hélder e Francisco, ambos de 23 anos, saíam da água depois de duas horas a cortar ondas. "Costumamos passar o dia todo dentro de água, mas isto não tem estado muito bom, o mar está muito forte", conta Hélder. Ainda a estudar, não falha um dia na praia e não há naufrágio que o demova. O problema não é a altura das ondas - entre os dois e os três metros. A corrente, "que está a puxar muito", é que não convida a grandes aventuras. "Mas amanhã voltamos", garante Francisco.

meteorologia Os alertas da Polícia Marítima emitidos desde a semana passada já deixavam antever dias maus no mar: ventos fortes e ondas até aos cinco metros de altura. A força da água confirma as previsões. Segundo o Instituto de Meteorologia, apesar de a previsão de marés não ser fácil - nem a comparação com anos anteriores, dados os muitos factores que afectam o mar -, "este ano o Inverno está a ser muito rigoroso, especialmente no que toca a vento". E o vento é determinante no comportamento e no estado do mar.

Desde 6 de Fevereiro que o Instituto de Meteorologia está com aviso amarelo para o estado do mar. Este é o alerta que entra em acção quando se prevêem ventos médios de 45 km/h - com possibilidade de rajadas até aos 65 km/h -, grande agitação marítima e ondas superiores a 4,5 metros de altura. O dia pior na costa ocidental, confirmou ao i fonte do instituto, foi ontem. O aviso amarelo para o estado do mar mantém-se para hoje, "por precaução", esperando-se ondas de cerca 3,5 metros, mas a tendência é para que venha a melhorar ao longo dos próximos dias - com o vento e as ondas a reduzirem já a partir de amanhã.


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