"É natural que os espanhóis inflacionem a quantidade de explosivos"

por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
Os elogios de Espanha e Portugal à cooperação antiterrorista não escondem as divergências nesta matéria
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A Espanha agradece e Portugal reconhece que pode ter evitado "futuros atentados terroristas", mas evita falar da ETA. A descoberta de uma casa nos arredores de Óbidos com engenhos prontos a explodir, centenas de quilos de material explosivo e um laboratório para misturar os ingredientes não é suficente para convencer a maioria dos observadores portugueses da existência de uma "fábrica de bombas" em território nacional.

Em declarações ao i, o antigo responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança, Leonel Carvalho, rejeita a designação "exagerada" das autoridades espanholas. "É natural que os espanhóis inflacionem a informação. Quanto mais conseguirem alertar a sua opinião pública, melhor para eles. Temos de compreender isso", afirma.

No único comunicado oficial sobre a moradia do Casal da Avarela, os ministérios da Administração Interna e da Justiça cifraram em cerca de 800 quilos as quantidades de explosivo encontradas. Espanha tinha contabilizado 1500 quilos, e justificou as discrepâncias pelo facto de Portugal ter em conta apenas o material "misturado e pronto a utilizar", em vez de contabilizar "todo o material que serve para fabricar explosivos".

A nuance não explica uma diferença de 830 quilos de nitrato de amónio nas quantidades reportadas a um e outro lado da fronteira. "Nós nunca inflacionamos os arsenais, fazemos tudo com base nas informações policiais", garante ao telefone um porta-voz do ministério espanhol do Interior. Leonel Carvalho insiste: "Os dados que tenho são seguros. Naquela casa só havia 500 quilos de nitrato de amónio, e não 1330, como dizem os espanhóis".

O país vizinho felicitou ontem o governo de Sócrates pela "eliminação de uma base logística fundamental", mas o presidente da Associação dos Investigadores da Polícia Judiciária, Carlos Anjos, recusa a existência de uma base. Esclarece que o termo é "despropositado" porque implicaria "outras realidades" como o treino para os terroristas e a aquisição da vivenda por parte da ETA.

Carlos Anjos acredita que os etarras possam ter usado Portugal como "casa de recuo", mas um antigo ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, nem sequer aceita isso. Questionado pelo Rádio Clube Português, o responsável da pasta no governo de Durão Barroso diz que a casa "seria mais um ponto de passagem", destinado a "desviar atenções e como forma de transição para encontrarem [os etarras] pontos mais seguros." Resumindo: nem "fábrica", nem "base", nem "casa de recuo". Apesar das profundas divergências nas apreciações feitas pelos dois países, Figueiredo Lopes assegura que o diálogo bilateral é "perfeito".

Os serviços secretos espanhóis e portugueses também destacaram ontem, noutro comunicado, a "excelente" colaboração mantida, desmentindo uma notícia do "DN" que denunciava a presença clandestina de elementos da secreta espanhola em Portugal. "Sei que estes dias houve agentes da polícia espanhola e da Guardia Civil em Portugal", sustenta Florencio Domínguez, decano dos jornalistas espanhóis em matéria de terrorismo e autor de um livro sobre as 857 vítimas mortais da ETA. Domínguez defende que a moradia era uma "fábrica" porque tinha "os produtos e o laboratório para as misturas". Faltava apenas o material encontrado na furgoneta interceptada em Bermillo de Sayago (ver infografia na edição impressa). Os ocupantes foram detidos poucas horas depois e nunca entregaram o carregamento aos etarras refugiados em Casal do Avarela, em fuga desde há uma semana.


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