PRIMEIRO PLANO

Um reino especial

por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
A Jordânia não tem petróleo, mantém relações com todos os vizinhos, que por vezes se odeiam entre si, e é um caso à parte no mundo árabe
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Do alto da cidadela de Amã e das ruínas romanas do templo de Hércules, a capital jordana lembra Jerusalém. É o fim do dia, arrefeceu, ouviram-se as orações das mesquitas e o reduto milenar contrasta com a modernidade elegante e arrojada da cidade, hoje com mais de 2 milhões de habitantes.

Vim cá - com o José Lamego - para falar no World Affairs Council (WAC), um think tank local que reúne políticos, militares, diplomatas, académicos, uma elite interessada e interessante. O José Lamego fala-lhes da percepção portuguesa do conflito israelo-palestiniano, eu dos processos de paz na África Austral - em Moçambique, Angola e na República da África do Sul.

As discussões são vivas, directas, apaixonadas, às vezes magoadas. Os nossos ouvintes sentem-se injustiçados pelo Ocidente - pelos americanos, que acham irremediavelmente pró-Israel, e pelos europeus, que, sem voz nem força próprias, seguem os americanos. Indignam-se perante a amálgama mediática que pinta o mundo árabe como um ninho de terroristas fanáticos, quando hoje são eles as primeiras vítimas desse terrorismo da Al-Qaeda - na véspera, no Iraque, tinham voltado os atentados suicidas.

A Jordânia é um caso especial no mundo árabe. Não tem petróleo, é vizinha de Israel, da Síria, do Iraque, da Arábia Saudita e tem relações com todos. Como nos explica o presidente do WAC, Abdelsalam Majali, antigo primeiro-ministro, o segredo do país foi o investimento na Defesa e na Educação: graças às excelentes forças armadas, formadas a partir dos beduínos leais aos hachemitas, a Jordânia mantém a estabilidade e dissuade as agressões. A aposta na educação e na formação faz com que exporte muitos milhares de quadros para a região. A ordem e a estabilidade trazem o turismo para esta outra terra santa com memórias de todos os tempos - como a Via Nova Trajana, que vai de Amã à famosa Petra e, mais a sul, ao porto de Acba, no mar Vermelho.

Tudo isto repousa na obra política da dinastia hachemita, de Hussein ben Ali e dos seus filhos Abdullah e Feisal (do Lawrence da Arábia), continuada pelo falecido rei Hussein, rei carismático, soldado, desportista, cosmopolita, com a sua série de rainhas, umas mais bonitas que as outras, e que foi o grande consolidador do moderno Estado jordano. É na lealdade à monarquia de militares e políticos como os nossos interlocutores, o general Fadel Ali Alsarhan e Shaker bin Zeid, que assenta a estabilidade deste pequeno país, ilha de paz e segurança numa região dilacerada e dividida pela confrontação, que pode ser, outra vez, a mãe de todas as guerras.

Professor universitário

Escreve à terça-feira


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