Violência

"My Way". Nas Filipinas, uma nota ao lado pode dar direito a um tiro

Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
Num país entupido de máquinas de karaoke, nenhuma canção provoca tantos distúrbios como o êxito de Sinatra
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Depois de um dia passado a escanhoar caras e cortar cabelos, Rodolfo Gregorio dirigiu-se ao bar de karaoke do bairro, ainda a cheirar a pó de talco. Pousando o copo de cerveja Red Horse Extra Strong, pegou num microfone com o ar confiante de um veterano e, por momentos, fez descer o silêncio entre o público com a sua interpretação de "My Prayer", dos Platters.

A seguir, cantou alto e bom som temas muito populares de Tom Jones e Engelbert Humperdinck. Mas Gregorio, 63 anos, testemunha de incontáveis sessões de pugilato e de algumas cenas de facada decorrentes de discussões a propósito de karaoke, não se atreveu a escolher um dos grandes clássicos: a versão de Frank Sinatra de "My Way".

"Eu gostava de 'My Way' mas, depois da confusão que gerou, deixei de a cantar", afirma. "Arriscamo-nos a ser mortos."

As autoridades não sabem exactamente quantas pessoas foram mortas ao longo dos anos enquanto cantavam "My Way" em bares de karaoke filipinos nem a quantas lutas fatais essa canção deu origem. Mas os meios de comunicação social registaram pelo menos seis vítimas durante a década passada, que chegaram a classificar na categoria "assassínios My Way".

Os homicídios têm feito nascer lendas urbanas sobre a canção e deixado os filipinos perplexos. Serão as mortes um subproduto natural da cultura de violência, bebedeiras e machismo do país? Ou será que há qualquer coisa de sinistro no tema?

Seja qual for a razão, muitos bares de karaoke retiraram o título das suas listas de canções. E os muitos adeptos de Sinatra, de que Gregorio, aqui na cidade mais meridional das Filipinas, é apenas um exemplo, exercem uma auto-censura decorrente do instinto de sobrevivência.

Os assassínios decorrentes do karaoke não se circunscrevem às Filipinas. Só nos últimos dois anos, um malaio foi mortalmente esfaqueado por monopolizar o microfone num bar, e um tailandês matou oito vizinhos quando se enfureceu por eles terem cantado "Take Me Home, Country Roads", de John Denver. Também nos Estados Unidos se têm registado ataques relacionados com o karaoke, como num bar de Seattle onde uma mulher, depois de criticar a actuação de um homem que cantou "Yellow", dos Coldplay, lhe desferiu um murro.

desafinanços As probabilidades de se ser morto durante uma actuação de karaoke deve ser maior nas Filipinas, quanto mais não seja devido à omnipresença desse passatempo. As reuniões sociais implicam invariavelmente um karaoke. Há máquinas independentes nos locais mais improváveis, como ao ar livre em zonas rurais, onde às vezes se pode ver homens a cantar no exterior logo às primeiras horas da manhã. E é possível que os filipinos, que se orgulham da sua capacidade lírica, tenham menor tolerância por maus cantores. Com efeito, a maioria das "mortes My Way" decorreram, segundo as informações facultadas, depois de os cantores terem desafinado, provocando o riso ou a troça de outros frequentadores do local. "O mal de 'My Way'", diz Gregorio, "é que toda a gente conhece a canção e não há quem não tenha uma opinião sobre ela".

Já outras pessoas, frisando que outras músicas igualmente populares não provocaram quaisquer mortes, apontam o dedo à própria canção. A letra, escrita por Paul Anka para Sinatra como súmula imodesta da carreira dele, fala de um tipo durão que "em caso de dúvidas", se limitava a "engoli-las e cuspi-las fora". Butch Albarracin, dono do Center for Pop, uma escola de canto de Manila responsável pelo lançamento de muitos cantores famosos, propõe aquilo a que chama uma "explicação existencial".

"'I did it my way', fi-lo à minha maneira - é arrogante", diz Albarracin. "A letra apela ao orgulho e à arrogância do cantor, como se fosse alguém, quando na realidade não é ninguém. Esconde os fracassos de quem a canta. É por isso que dá origem a lutas."

Os defensores de "My Way" dizem que a canção é vítima da sua própria popularidade. Como é cantada mais vezes do que a maioria das outras músicas, dizem, a violência relacionada com o karaoke tem mais probabilidades de ocorrer quando a cantam. Os verdadeiros motivos da violência são o desrespeito pela etiqueta do karaoke, como monopolizar o microfone, rir-se de alguém que está a cantar ou escolher uma canção já interpretada.

"A sociedade Filipina é muito violenta; o karaoke só traz ao de cima o eu profundo de cada um quando certas regras sociais são desrespeitadas", diz Roland Tolentino, perito de cultura pop da Universidade das Filipinas. Mas mesmo ele se esquivou a apontar uma razão precisa, dizendo que o carácter "triunfalista" da canção pode contribuir para a violência.

Alguns dos aficionados do karaoke optam por não correr riscos, nem mesmo em reuniões familiares.

solução: um gay Em Manila, Alisa Gabby, 33 anos, reúne-se invariavelmente com a família diante de uma máquina de karaoke, mas baniram "My Way" depois de um tio, ao ouvir um amigo cantá-la num bar, se ter enraivecido com as gargalhadas provenientes da mesa vizinha. O tio, agente da polícia, puxou do revólver, fazendo com que os clientes da mesa, de mansinho, pagassem a conta e saíssem do estabelecimento.

As Filipinas, onde há mais de um milhão de armas ilegais, sofre há muito de todos os tipos de violência, da política à privada. Os clientes da classe média mais prudentes tendem a preferir clubes de karaoke dotados de cubículos que os isolam de estranhos.

Mas nos bares de karaoke onde uma canção custa 5 pesos (menos de €0,03), os clientes estão muitas vezes quase ao colo de gente que não conhecem, por vezes pouco à vontade. Um subgrupo de bares de karaoke com GRO - "guest relations officers", ou agentes de relações com a clientela, um eufemismo para prostitutas - empregam frequentemente homossexuais, que são vistos como neutros, para acalmarem a tensão subjacente dos clientes masculinos. Como os homossexuais não são vistos como rivais pela atenção das mulheres - nem rivais na interpretação de canções, pontuadas e classificadas pelas máquinas de karaoke - podem usar o humor para prevenir confrontos entre clientes.

Num desses bares em Quezon City, próximo de Manila, os clientes cantam karaoke nas mesas do primeiro andar e podem acompanhar uma GRO até ao andar de cima. As lutas rebentam muitas vezes quando os clientes de uma mesa olham para outra "com ar arrevesado", diz Mark Lanada, 20 anos, gerente do estabelecimento. "Essa é a maior fonte de tensão", diz Lanada. "É por isso que todos os locais como este têm um homossexual como eu."

Os bares de karaoke vulgares, como o Nelson Carenderia, aqui em General Santos, uma única sala de paredes forradas de contraplacado, sem decoração, exigem que cada cantor ceda o microfone depois de três canções consecutivas.

Numa noite recente, na mesa mais perto da máquina de karaoke, Edwin Lancaderas, 62 anos, entoava uma canção em tagalog, "Fight Temptation", acerca de um homem casado que, embora desistisse de um caso com outra mulher, cantava o deleite dos "momentos roubados" que tinham partilhado. O amigo, Dindo Auxlero, 42 anos, pegou depois no microfone, berrando canções de Scorpions e Dire Straits. A mesa deles estava juncada de garrafas de Red Horse.

"Nas Filipinas, a vida é difícil", diz Auxlero, que conserta relógios num quiosque de rua. Falou da corrupção do governo e da fragilidade da economia, circunstâncias que têm levado tantos filipinos a emigrar, entre os quais a mulher dele, actualmente empregada doméstica no Líbano. "Mas, sabe, cá temos um ditado: 'Não nos devemos preocupar com os nossos problemas. É preciso deixar que os nossos problemas se preocupem connosco."' Os dois homens riem a bom rir. "É por isso que vimos aqui todas as noites, para varrer o excesso das nossas cabeças", diz Lancaderas, acrescentando, contudo, que os dois observam a etiqueta do karaoke e, claro, não cantam o "My Way".

Segundo ele, por detrás das mortes "My Way" estão "mal-entendidos e invejas". "Só espero que isso não aconteça aqui."

Exclusivo i

The New York Times



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