Sporting-Benfica

Sabry. "O Schmeichel nem se mexeu. Parecia uma múmia"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
Há dez anos, o egípcio calou o Sporting com um golo de livre directo
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Maluco. Sabry jogou cinco anos em Portugal mas o seu vocabulário português é reduzido. E a palavra maluco aplica-se a tudo. Sem maldade nem rancor. João Vieira Pinto é maluco, Nuno Gomes idem, Porfírio idem idem. Sabry é assim. Tem 35 anos mas é um menino inocente que se expressa mal em português e se ri por tudo e por nada.

No Cairo, onde vive e joga desde 2004, Sabry é figura e é dos poucos a andarem num carro com vidros fumados. "Se me vêem [eles, os egípcios] nunca mais me largam, com fotografias e autógrafos, e demoro horas a chegar a casa. Aqui é assim. Pergunta ao Manuel José como é que era quando ele treinava o Al Ahly."

E daí a conversa desagua para Portugal, com palavras soltas de Sabry. "Manuel José, Rei de Portugal e dos Algarves [o técnico é de Vila Real de Santo António], Benfica, Sporting." E é aí que o i trava o andamento de Sabry: Sporting-Benfica de hoje.

O extremo egípcio sabe o que é calar os adeptos do Sporting em Alvalade. Só que, na altura desse silêncio (6 de Maio de 2000), o Sporting estava para ser campeão nacional e o Benfica estragou a festa, com um livre directo de Sabry aos 88'.

SCHMEICHEL "Chiii, esse livre... Ganhei ao Sporting, calei os adeptos deles com o dedo à frente da boca e bati o Peter Schmeichel, o número um do mundo, que nem se mexeu e parecia uma múmia. Ei, mas o Sporting foi campeão na mesma. Assim Lisboa festejou duas semanas seguidas, não é verdade? Primeiro o Benfica. Depois o Sporting. Será que houve um baby boom em Lisboa como no caso do Iniesta?", pergunta o egípcio, em inglês, ligeiramente mais explícito e menos atabalhoado que o seu português, numa alusão ao recente crescimento de 85 por cento de nascimentos em Barcelona, justamente nove meses depois do golo de Iniesta, que qualificou o Barça para a final da Champions.

BEIJO  Agora, a pergunta que se impõe: e o beijo na bola antes desse livre? "Ainda se lembram disso? Óptimo, ainda não se esqueceram de mim. Olha, o Kandaurov estava ao pé de mim e perguntou-me que raio estava a fazer, que a bola estava toda suja. Nessa tarde fiz isso e golo. Depois nunca mais acertei. O meu último golo já foi em Maio de 2009, e de bola corrida, mas estou insatisfeito nesta equipa."

E explica: "Aqui, a tropa é um assunto de Estado, com importância elevada. Se uma pessoa tem o ensino básico, cumpre um ano de tropa. Se não, três anos. Eu pertenço ao primeiro grupo. Mas como estive fora do país [antes de Portugal, Áustria, Grécia e Dinamarca], mal cheguei ao Egipto, obrigaram-me a ir para o Geish. Estou aqui amarrado a um clube militar, sem visibilidade."

SPORTING Curiosamente, a estreia de Sabry foi com o Sporting. "Na Luz, antes do jogo, o JVP e o Nuno Gomes vieram ter comigo e ensinaram-me não sei quantas palavras para dizer ao árbitro. Só mais tarde é que percebi que eram asneiras. Nos primeiros minutos, dirigi-me ao árbitro naqueles termos. Ele [Lucílio Baptista] ficou espantado mas sorriu. A imediata reacção de Calado, Maniche, Van Hooijdonk, Poborsky, Paulo Madeira, Nuno Gomes e JVP foi falarem comigo com palavras bonitas e pedirem desculpa ao árbitro pelas minhas maneiras. Já viste o descaramento deles? São malucos, muito malucos."


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