Visto de fora
O regresso da inflação e a saída da crise
por Miguel Ángel Belloso, Publicado em 08 de Fevereiro de 2010
Se os preços aumentarem e os custos laborais não se moderarem, será impossível para a Espanha recuperar a competitividade
Os últimos dados do índice de preços no consumidor (IPC), correspondentes ao mês de Novembro, interromperam uma tendência de oito meses de evolução negativa. O governo parece sentir-se aliviado com a quebra aparente da tendência e acredita que se confirma o início da recuperação: tendo a grave recessão de que sofre a nossa economia sido associada a pressões deflacionistas, o desaparecimento destas deveria pressupor o fim do pior da crise.
A questão é bastante mais complexa. Independentemente de a inflação subjacente continuar a estar muito perto de zero, obrigando-nos a ter cautela, o mais relevante a fazer é integrar - relacionar - a análise da evolução dos preços em Espanha com os mecanismos que deveriam fazer-nos sair da crise. Por outras palavras: na conjuntura económica actual, a deflação é boa ou má? Este mesmo debate ocorreu no Japão nos anos 90, quando, após o rebentar das bolhas imobiliária e financeira, o IPC se manteve muitos anos ligeiramente abaixo de zero.
Claro que ninguém defende o prolongar de um processo deflacionista, entendido como uma queda generalizada e persistente dos preços de uma economia. Não há nada mais destrutivo. Centrando-nos em Espanha, parece claro que a nossa economia não pode manter o grau de endividamento - excesso de despesa e perda de competitividade - anterior ao estalar da crise. Noutros momentos da nossa história, as crises da balança de pagamentos - mais uma vez, excesso de despesa e perda de competitividade - resolviam-se num prazo relativamente curto com a desvalorização da moeda e o aumento das taxas de juro. Ou seja, gerava-se um processo de ajustamento, promovendo um empobrecimento geral da nossa economia e tentando fazer uma reatribuição dos factores produtivos de uns sectores para outros, necessariamente mais orientados para a procura externa.
Como proceder ao dito ajustamento na Espanha actual? O ideal teria sido reconhecer a gravidade da crise (ou seja, os elevados níveis de endividamento, a capacidade produtiva e de emprego acumulados na nossa economia) e ter conseguido, no mais curto prazo possível, uma recuperação da competitividade com uma redução de preços e custos unitários de produção superior à dos nossos concorrentes. Ora bem; o que aconteceu, de facto? Avançou-se mais no que diz respeito aos preços do que aos custos unitários, especialmente os salariais, que continuaram a subir em vez de baixarem. Essa tendência parece, infelizmente, estar a acabar: em Novembro, o diferencial de inflação com os países da zona euro foi mínimo (uma décima), o que pressupõe adiar sine die a melhoria da competitividade.
Por isso, a consolidação da subida de preços, especialmente se for superior à dos nossos concorrentes, seria uma má notícia para a recuperação sustentada da nossa economia. Seria ainda pior se, além disso, os custos unitários de produção aumentassem. Trata-se de um cenário muito pouco animador, tendo em conta que o ajustamento dos preços imobiliários foi muito insuficiente e que os balancetes dos bancos estão repletos de risco imobiliário. O mesmo é dizer que estaríamos perto de uma saída da crise económica à japonesa. E o que é isso? Eis o que aconteceu no Japão: pouco crescimento durante mais de uma década; muito pouca inflação ou mesmo deflação durante mais de cinco anos; grave crise bancária, só resolvida muito mais tarde com a compra de empréstimos morosos e a recapitalização de entidades; prolongada restrição de crédito a empresas e particulares; e défice público crescente.
Não fosse esse panorama, a repetir-se entre nós, já dramaticamente sombrio, acresce recordar três diferenças profundas entre o nosso país e o Japão: este era e continua a ser um dos maiores exportadores, um dos mais notáveis credores líquidos de todo o mundo e um dos países com uma taxa de desemprego mais controlada - e não ultrapassou os 6% durante a crise.
Economista
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