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Victor Ciuffa. O homem que viveu "La Dolce Vita" antes do filme
por Luís Leal Miranda, Publicado em 08 de Fevereiro de 2010
A vida de Victor Ciuffa deu um filme. "La Dolce Vita", de Fellini, teve como base as aventuras do repórter que agora conta tudo
Marcello Rubini, personagem principal do filme de Federico Fellini, "La Dolce Vita" ("A Doce Vida", na desnecessário tradução portuguesa) era um jornalista caçador de escândalos, conhecedor da alta sociedade italiana, um tipo incapaz de guardar para si as histórias mais perturbadoras. Marcello Rubini deu a Marcello Mastroiani, o actor, uma das mais emblemáticas interpretações da sua carreira - e a Victor Ciuffa uma série de arrepios.
Ciuffa foi o homem que inspirou o filme ao segredar o lado obscuro da alta sociedade italiana aos ouvidos de Federico Fellini - e viveu na vida real o que Rubini viveu em 170 minutos de fita de celulóide. Aos 77 anos, cinco décadas depois da estreia do filme, Victor Ciuffa conta a sua versão dos factos: "La Dolce Vita, Minute By Minute", abre o livro sobre os bastidores das histórias de bastidores que deram origem ao filme.
"A verdadeira Dolce Vita começou em Roma, anos antes dos cafés abrirem na Via Veneto [popular rua com cafés e lojas] e tem mais a ver com mortes misteriosas, abuso de drogas e vidas debochadas de aristocratas romanos do que com Hollywood", conta Ciuffa, jovem de classe média que se caiu de pára-quedas na burguesia italiana. E foi ficando.
No seu primeiro grande trabalho como repórter, Ciuffa cobriu o desaparecimento de uma jovem da alta sociedade italiana, atirada para um rio depois de morrer de overdose numa festa cuja lista de convidados incluía a nata da aristocracia local. O que o jovem Victor viria a encontrar, ao entrevistar as testemunhas dessa morte, foi um conjunto de intelectuais misturados com membros de uma nobreza decadente, gente muito diferente mas com um interesse em comum: gostavam de festas ruidosas e mulheres jovens - sobretudo estrangeiras. As festas prolongava-se até de manhã ou terminavam abruptamente: "A polícia chegou e prendeu um conde, um marquês e um príncipe", lembrou ao "The Guardian".
De LA para Roma
Enquanto isso, Hollywood descobria um país onde era mais barato filmar e havia tantos motivos de perdição como na boa velha Los Angeles. Por essa altura, Victor Ciuffa já tinha uma coluna de mexericos no jornal "Corriere d'Informazione", local a partir de onde documentou uma sociedade onde cada vez mais festas acabavam de duas maneiras: com pouca roupa ou com muita polícia. Ciuffa era o nome que surgiam por baixo dos textos que faziam os ardinas gritar "escândalo, escândalo" pelas ruas de Roma.
E foi então que se sentou a uma mesa de café com o realizador Federico Fellini, homem empenhado em documentar aquele período fervilhante, num filme que viria a servir de marco para a sua carreira e cartão de visita tanto para a cidade como para o cinema daquele país.
Erecções em papel
Depois de ver "La Dolce Vita", Victor Ciuffa pôs a mão na consciência. O homem que nunca se coibiu de colorir as suas histórias, o jornalista a quem os editores pediam "histórias que façam este jornal ter uma erecção", começou a ver o mundo dos ricos e famosos com outros olhos. "Percebi como as estrelas que enchiam a Via Veneto se viam a elas próprias como deuses", desabafou. Mas não largou o emprego. Mudou para o pseudónimo Ugo Naldi e continuou a viver da bisbilhotice porque a bolsa pesou mais do que a consciência. "Pensei em parar, mas precisava do dinheiro."
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