Família

"Ser supermulher não é coisa que se faça sozinha"

Publicado em 06 de Fevereiro de 2010   
Mulheres de sucesso com casamentos felizes. Impossível? Quatro exemplos provam que não
Opções
a- / a+
Leonor Picão, arquitecta, sai do trabalho às 17h30, entre as 17h30 e as 21h30 faz cinco viagens ao Sporting para deixar e recolher os quatro filhos e, pelo meio, ainda regressa ao trabalho para completar alguma coisa que ficou por fazer. Assunção Cristas, deputada do CDS, jurista e professora universitária, está em Guimarães, no dia de encerramento das jornadas parlamentares do partido, e tem de correr para apanhar a primeira boleia para Lisboa. Os três filhos esperam-na. Helena Vieira, jornalista com duas filhas e um casamento feliz de 25 anos, não esquece o dia em que uma chamada de Jorge Sampaio a Belém a impediu de chegar a casa a tempo de comemorar o 15.o aniversário da filha mais velha. Aprendeu a não se martirizar e a arranjar soluções práticas: compensou a filha no dia seguinte.

Têm carreiras de sucesso, casamentos longos e estáveis e ainda têm tempo para os dois, três ou quatro filhos. Afinal não é mito. As supermulheres existem.

Um relatório do Pew Research Center sobre "a ascensão das mulheres casadas" mostra que nos EUA quase num terço dos casamentos a mulher tem maior nível de estudos que o homem. E, apesar de os homens ainda ganharem mais que as mulheres, elas já são o principal sustento da família em 22% dos casais. Em Portugal não existem dados estatísticos sobre as diferenças de salário entre homens e mulheres casados.

O dado mais relevante, que mostra as dificuldades da mulher portuguesa em conciliar vida familiar e profissional, é, de acordo com a socióloga Sofia Aboim Inglês, a percentagem reduzida de mulheres com emprego a tempo parcial (16,4% contra os 72,8% na Holanda, por exemplo). Na União Europeia, Portugal está entre os países que apresentam mais elevada participação feminina na actividade profissional a tempo inteiro. "Não havendo oportunidades de trabalho a tempo parcial, é mais difícil que uma mulher que está no mercado e não queira abandonar a sua carreira consiga desdobrar- -se", justifica a socióloga do Instituto de Ciências Sociais.

"Tenho uma equipa em casa" Helena Vieira lembra-se de se ter deslumbrado com os corredores do Parlamento, há 23 anos, a ponto de só a altas horas se lembrar de ligar para casa. A primeira filha estava na altura num infantário ao lado da Assembleia. Eram outros tempos: sessões parlamentares pela noite fora, que deixavam o hemiciclo cheio de fumo. "Foi um período difícil, em que sacrifiquei muito a família. Quantas vezes entrei em casa de madrugada... Estava a entrar naquele mundo da política e estava fascinada." O segredo para conseguir ser três mulheres numa só? Ter uma "equipa em casa, tal como no trabalho" e um marido "com uma vida menos louca e horários mais certos", que não cobra horas, aceita partilhar tarefas e sempre "foi um paizão". A chave para a conciliação de casamento e trabalho durante 25 anos é "ter um bom escudo familiar", garante a jornalista que, aos 48 anos, recusa ser vista como uma supermulher. "Supermulher é quem tem de tratar de tudo sozinha. Sou apenas uma mulher feliz."

"Sai-me do corpo" Um dia difícil na vida de Catarina Tomaz transforma-a numa espécie de bomba-relógio. Tudo é cronometrado numa rotina que só de ouvir cansa. Às 7h está a preparar os pequenos- -almoços, às 7h30 os filhos estão na escola, às 7h45 entra no cabeleireiro, às 9h30 chega ao trabalho, passa o dia em reuniões, chega a casa às 20h, faz o jantar, deita os filhos às 22h. E, por fim, o merecido cigarro ao lado do marido. No Verão antecipa o despertar para as 6h, para fazer jogging a caminho da padaria, e ao fim- -de-semana ainda arranja tempo para andar de skate e patins com os filhos. Depois de ter passado um ano em casa a cuidar das crianças, jurou nunca mais repetir a experiência. "Não me sentia feliz. Tenho consciência de que tenho limites. Sai-me do corpo, mas é só neste ritmo que sei viver." Catarina Tomaz, 38 anos, não tem uma solução mágica para quando lhe perguntam como consegue ser uma profissional de sucesso e ter um casamento sorridente de 12 anos. "O meu mérito vem da sorte de ter casado com uma pessoa tão polivalente como eu e que consegue gerir o tempo de forma tão racional como eu." Todos as manhãs, uma pergunta repete-se entre Catarina e o marido: "Quem assegura hoje?" Se um não pode, está lá o outro.

"O truque é fazer por gosto" Primeira regra do despertar de Leonor Picão: um horário. Só assim consegue dividir--se entre a vida de arquitecta, o casamento de 18 anos, os quatro filhos, as associações de pais e a catequese. O cansaço está lá, claro. "Mas é compensado. O truque é fazer tudo por gosto. Como dizem, não cansa." Escolher o melhor ponto geográfico para morar também ajuda: entre o emprego e as escolas.

"Não há duas vidas, só uma" Assunção Cristas já dava aulas ao segundo ano de Direito e casou um ano depois de ter terminado o curso. Foi sempre assim: tudo em catadupa. Trabalhou três anos no Ministério da Justiça, teve o segundo filho, entregou a tese de doutoramento, ficou grávida de um terceiro. Cedo se decidiu pela profissão que podia conciliar mais facilmente com o seu desejo de ser mãe: professora universitária. "Pode-se optar por chegar mais cedo a casa e trabalhar à noite." A entrada na política piorou os horários, mas a deputada coloca-a noutro patamar. "Os filhos sabem que passar horas a discutir o Orçamento do Estado tem um retorno que não é só para mim." A estratégia para conciliar vida de deputada, professora, mãe de três filhos e um casamento de 12 anos é encarar tudo como uma vida só: "Não há duas vidas, só uma." Sem o apoio do marido e da mãe, acha que nunca conseguiria. "Ser supermulher não é coisa que se faça sozinha", brinca. Depois, no dia-a-dia, tudo se resume a ser uma pessoa prática. Evitar reuniões ao fim da tarde é o primeiro princípio. "Tento sempre antecipá-las para a hora do almoço. A verdade é que as reuniões tardias ainda são coisa do mundo dos homens sem preocupações familiares."


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close