Memória

Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Double hat trick que foi do Best

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 06 de Fevereiro de 2010   
Há 40 anos o norte-irlandês marcou seis golos ao Northampton, após seis semanas de suspensão por atirar lama à cara de um árbitro
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Maradona good, Pelé better, George Best. Na Irlanda do Norte, Maradona é bom, Pelé melhor mas George é o melhor. É do Best, portanto. Embora George Best pertença àquele naipe de jogadores que não foi a um único Mundial, como Di Stéfano, os norte-irlandeses idolatram-no como um deus. Os adeptos do Manchester United idem. Caramba, até os do Northamtpon, porque há 30 anos Best espantou toda a gente, incluindo os seus pais, que escutaram pela rádio os seis golos do filho num 8-2 para a Taça de Inglaterra.

Foi a 7 de Fevereiro de 1970 que o Manchester United goleou o Northampton, da 4.a divisão, e nessa tarde Best bateu um recorde inglês de seis golos num jogo. Se o seu nome já era falado em todo o mundo, a partir desse momento tornou-se imortal. Com o double hat trick no Country Ground, em Northampton, que hoje só recebe jogos de críquete, Best conquistou o estatuto de lenda. Tanto assim é que o plantel do Norhtampton assinou-lhe a bola do jogo e ofereceu-lha logo a seguir ao duche. Foi nessa altura que o defesa Roy Fairfax, encarregado da ingrata missão de marcar o norte-irlandês, proferiu a famosa frase: "O mais perto que consegui ficar perto dele foi quando lhe apertei a mão no final do encontro."

O curioso é que Best até nem estava para jogar nesse dia. E lá vamos nós recuar no tempo, uma vez mais. A 17 de Dezembro o dérbi de Manchester terminou empatado a dois golos, para a 2.a mão das meias-finais da Taça da Liga, o que implicou a eliminação do United, face ao 1-2 do primeiro jogo. Desagradado com o árbitro, que, a seu ver, omitiu um claro penálti, Best agarrou num pedaço de lama do pseudo-relvado de Old Trafford e atirou-lho ao peito, além de vociferar uns quantos palavrões pelo meio. Valeu a intervenção de Tony Book, capitão do City (é importante este nome, já vai perceber porquê), e a situação ficou por ali. Acontece que a federação não perdoou a má educação e suspendeu Best por seis semanas. Nesse período o extremo só ia aos treinos.... quando ia. Era o Best bipolar: ora se aplicava de uma forma nunca vista, ora faltava, à conta da intensa vida nocturna, às vezes acompanhado pelo actor Michael Caine. "Estou cansado desta vida", desabafou Best à saída de um treino, no final de Janeiro. "Tenho de começar a jogar, senão perco-me", justificou. Por isso, o treinador Wilf McGuiness, que sucedera ao lendário Matt Busby e até treinara Best quando este chegou a Manchester aos 17 anos nos juniores, não duvidou em chamá-lo para Northampton. Deu-lhe a camisola 11 e Best segredou-lhe ao ouvido (todos os companheiros ouviram mas ignoraram): "Seis semanas de fora igual a seis golos."

Quando entrou no Country Ground, uma multidão de oito mil pessoas esperava por ele e dedicou-lhe uns cânticos cómico-provocadores: George Best Superstar/Walks like a girl/And he wears a bra (George Best Superstar/Anda como uma menina /E usa um soutien).

Já aqui se falou de Pelé, provavelmente o melhor jogador de sempre mas seguramente o melhor marcador da história, com 1284 golos. É o rei dos hat tricks, com 92, além de 30 póqueres (quatro golos num jogo) e seis pentas (cinco). Mas nunca, nunca marcou seis golos num só jogo. E eis que Best se sai com este número, no duplo sentido, a conjugar uma exibição deslumbrante: três golos com o pé direito, dois com o esquerdo e um de cabeça. Na baliza, o pobre coitado chamava-se Kim Book. Lembra-se deste apelido? Pois, era o irmão mais novo de Tony, o capitão do City que impediu Best de fazer asneira com o árbitro no dérbi de Manchester.

Veja em ionline.pt um resumo alargado do Northampton-Manchester United.


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