PRIMEIRO PLANO

As receitas culinárias da avó de Teixeira dos Santos

Publicado em 05 de Fevereiro de 2010   
Na questão do défice, o governo de Sócrates comporta-se como a mulher que engana o marido e depois pede desculpa, garantindo que foi sem querer
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Não há coincidências, lá dizia a escritora pop Margarida Rebelo Pinto - e pelos vistos com toda a razão. Os portugueses elegeram um líder socialista com um nome da Grécia antiga e as organizações internacionais, o "Financial Times" e as agências de rating avisam que o país corre o risco de cair numa crise semelhante à da Grécia moderna. Isto dois meses depois de terem sido todos alertados pelo economista Ricardo Reis no i (12/12/2009), mas o que é nacional nem sempre é entendido como bom. Havia alguma coisa de premonitório quando Sócrates tomou posse pela primeira vez, em 2005, com maioria absoluta. Bem pode o primeiro-ministro dar - como deu esta semana - uma entrevista ao diário francês "Libération" em que ataca os analistas das agências de rating e os convida a virem a Portugal ver a "realidade económica", porque os números do défice e da dívida pública são elucidativos.

Sócrates, o grego que era filósofo, terá dito que "a maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser". José Sócrates, o português que é líder do PS, pretende parecer o que não é e transformar a realidade no que gostaria que fosse. Afastar directores ou colunistas de jornais e jornalistas ou apresentadores de programas de televisão em Portugal é mais fácil que denegrir analistas de agências de rating. Desculpar-se com campanhas negras não tem tradução possível em países e mercados onde a existência de uma imprensa livre e independente dos poderes é um dado adquirido. Manuela Moura Guedes da TVI ou Mário Crespo da SIC poderiam viver em paz com as súbitas alterações de humor de José Sócrates se dessem pelos nomes de Antony Thomas, da Moddy's, ou Kai Stukenbrock, da Standard & Poor's.

O governo vai balançando entre as "calhandrices" - leia-se bisbilhotices - que atribui ao jornalista Mário Crespo e as "receitas culinárias da avó" de Teixeira dos Santos, que, segundo o próprio, nunca falham no combate ao défice. "Posso enganar--me, mas não engano", garantiu segunda-feira o ministro das Finanças na comissão parlamentar de Orçamento e Finanças, em resposta à deputada Assunção Cristas, do CDS. Ou melhor, acrescentou Teixeira dos Santos, "não engano deliberadamente". Convenhamos que o tamanho do erro não foi pequeno: da previsão de um défice de 2,2% do produto interno bruto no Orçamento do Estado para 2009, chegou aos olímpicos 9,3% de hoje. Brutal, para não dizer pior.

Na questão do défice, o governo de Sócrates comporta-se como a mulher que engana o marido - ou vice-versa - e depois pede desculpa, garantindo que foi sem querer. "Não fiz de propósito, querido, mas enganei-te com o vizinho e nas contas do talho. Estamos falidos." O pior é que neste caso o marido enganado somos todos nós, portugueses - e, como é habitual, fomos os últimos a saber. De facto, não há coincidências.

Editor do Zoom



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