Futebol Americano

Renegades: em busca do sonho americano

por Rui Pedro Silva, Publicado em 05 de Fevereiro de 2010   
A equipa do Porto foi pioneira no futebol americano em Portugal. Em semana de Super Bowl, o i também entrou no espírito
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Jogar futebol americano em Portugal não é para quem quer, é para quem pode. A primeira dificuldade surge quando se tenta explicar que há uma equipa no Porto. "Mas o que é que está a fazer uma equipa de futebol dos Estados Unidos por cá?", é uma das coisas que as pessoas costumam responder.

A indiferença existe, mas não custa dinheiro, ao contrário do equipamento necessário. Que acontece se amanhã quiser ser jogador futebol americano? Primeiro é preciso gostar do desporto, mas também estar disposto a abrir os cordões à bolsa. Ricardo Teixeira, um dos membros da direcção dos Porto Renegades, explica: "Se for preciso, temos equipamento para emprestar a quem quiser experimentar, mas depois a compra pode chegar a um valor que ronda os 250 euros."

Com ou sem equipamento, os sábados são dias de eleição no Parque da Cidade do Porto. Junto ao parque de estacionamento, um carro de exteriores da RTP provocou a sensação de que o i não estava sozinho. Ricardo Teixeira revela que foi apenas uma ilusão: "Não, isso é por causa do campeonato de surf."

E é assim que os Renegades iniciam o treino. O campo é improvisado, não tem marcações nem postes para treinar. Tem espaço, e isso já é uma excelente vantagem. Em redor, algumas pessoas assistem ao treino. "É a família do treinador e alguns amigos. Ainda há pessoas que param durante uns minutos, com curiosidade, mas depois vão à vida delas", diz Ricardo.

TRABALHO E AMOR A excepção foi Alberto Aliberti, o treinador. Há quatro anos, uma coincidência ligou o natural de Miami à equipa do Porto. "Estava em Portugal há 15 dias, para onde vim trabalhar, e a televisão só passava futebol, que, para ser sincero, é um desporto que não suporto. Decidi ir dar uma volta pelo parque e comecei a ouvir o som das protecções dos ombros que se usam no futebol americano. Aproximei-me e fiquei entusiasmado com uma das placagens de um dos jogadores. Foi incrível. Eles pararam o treino e o treinador de então [Daniel Correa, o fundador da equipa] veio falar comigo. E juro que a conversa se limitou a três perguntas: 'É americano?', 'Gosta de futebol americano?' e 'Quer ser o nosso treinador?' Respondi 'sim' a tudo com grande entusiasmo e estava feito", explica.

AMOR E TRABALHO  Se Alberto Aliberti veio em trabalho e encontrou um amor antigo, Mark Weaver descobriu o amor antes de começar a ser o adjunto. "Sou de Seattle. Um dia estava num chat a jogar trivia e uma das participantes, uma portuguesa, começou a falar comigo. Fomos falando cada vez mais e decidi vir para o Porto."

Apesar de haver cada vez mais interessados em futebol americano, nem sempre é fácil convencer os pais de que é uma modalidade como as outras. "Sim, por vezes é complicado afastarmos o preconceito da violência e já tivemos pais que sofrem muitos nos treinos e chegam a proibir os filhos de treinar. Mas, felizmente, é muito raro. Temos sempre a preocupação de explicar que a integridade física deles é uma das prioridades e que ninguém está ali para se magoar", conta Weaver.

BOOM TELEVISIVO O campeonato português tem cinco equipas. Além dos Renegades e dos Crusaders, há ainda os Navigators de Lisboa (campeões nacionais), os Lumberjacks de Paredes (que nasceram através de antigos jogadores dos Renegades) e os Black Towers da Galiza (que preferem jogar em Portugal, por ser menos dispendioso).

O interesse é cada vez maior, muito por culpa da oferta televisiva. Todos reconhecem que é uma vantagem, mas Aliberti relembra que há um factor negativo: "Habituam-se a ver coisas na televisão, que é o melhor que o desporto tem, e depois querem transpor para o campo. É impossível. Eu não posso esperar ver o Ronaldo a jogar e depois fazer o mesmo. Às vezes é difícil explicar que nem sequer podemos experimentar."

O JOGO Um campo de râguebi do Jamor serve de casa aos Crusaders para jogar com os Renegades, uma maratona de aproximadamente três horas, um desafio para a maioria dos novatos que pretendem ver um jogo. Ricardo Teixeira recorda uma história curiosa: "Não é fácil estar tanto tempo a ver um jogo que na maior parte dos casos não se percebe. Houve uma vez em que as mulheres (irmãs, amigas, namoradas, mães) deixaram de olhar para o jogo e começaram a comentar a forma como as calças justas nos ficavam... a olharem para os nossos rabos. Foi a solução que encontraram."

Neste jogo, os três bombeiros presentes não resistiram às incidências do jogo. No início do segundo período, dois ensaiavam os passos para uma qualquer parada, enquanto o terceiro estava junto dos postes ao telemóvel. Pouco depois entraram em campo. "Renegades, take a knee", gritou-se imediatamente. Os jogadores puseram--se de joelhos enquanto Ricardo Teixeira era assistido. "Sim, fazemos sempre isso. É um sinal de respeito pelo jogador que está caído", explica Miguel Caratão, o quarterback dos Renegades.

Ao intervalo a equipa vencia, mas Aliberti não estava satisfeito. A palestra é dada num dos cantos do campo. Pouco depois de começar a dar a estratégia para a segunda parte, fita o jornalista, que ainda não conhecia, e questiona os jogadores com tom ameaçador: "Who is that guy? [Quem é aquele gajo?]". "He is the reporter. Do you want me to tackle him?" [É o jornalista. Quer que lhe faça uma placagem?]", responde em tom de brincadeira um dos jogadores. A vida do jornalista deixou de estar em risco e o jogo continuou, com a vantagem a ser consolidada para o 19-0 final no marcador.

O INÍCIO A partida teve uma curiosidade: um dos árbitros foi Daniel Correa, o fundador dos Porto Renegades. Em 2002 foi estudar para a Alemanha e apaixonou-se pela modalidade. Chegou a jogar pelos Wuppertal Greyhounds. "Assim que regressei a Portugal, tentei juntar alguns amigos e distribuir panfletos para formar uma equipa. Chegaram a existir os Capitals, em Lisboa, mas a ideia nunca chegou a ir para a frente. Por fim, a 6 de Fevereiro de 2005, nasceram os Renegades no Porto, a primeira equipa de futebol americano em Portugal. Porquê Renegades? Nos EUA, as equipas costumam ter uma referência a algo da cidade. Quisemos seguir isso e que fosse algo forte. Como queríamos ser uma equipa regional, e não apenas da cidade do Porto, escolhemos Renegades, porque se diz que o Norte é renegado pelo Sul."

Como é natural, a Super Bowl entre Indianapolis Colts e New Orleans Saints, no próximo domingo, domina os temas de conversa. As opiniões divergem, mas a votação feita pelos Renegades dá a vantagem aos Saints (16 votos contra 15).


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