O filme perdido de Jacques Tati é uma carta à filha ilegítima

por Vanda Marques , Publicado em 04 de Fevereiro de 2010   
O realizador de "Belleville Rendez-Vous" adaptou o último guião de Jacques Tati. "L'illusionniste" estreia-se no Festival de Berlim este mês
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Jacques Tati foi tão desastrado com a filha Helga como a sua personagem cómica, o Monsieur Hulot, em "Mon Oncle". Tal como no episódio da cozinha moderna, Tati queimou-se e não conseguiu abrir uma única porta. O realizador francês morreu sem conhecer a filha e sem lhe responder a uma única carta ou telefonema. Foi a irmã de Tati que o convenceu a não se casar com a mãe de Helga, Herta, uma bailarina austríaca que conheceu no Teatro de Paris. Nathalie obrigou Herta a assinar um documento legal, em troca de dinheiro, aceitando nunca exigir nada ao pai da criança.

O escândalo foi abafado, mas no teatro de Paris, onde Tati e Herta trabalhavam, todos sabiam da história. Terá sido a vergonha a impedir Jacques Tati de assumir a filha; mesmo assim tentou uma aproximação. Escreveu-lhe uma carta em forma de guião que nunca lhe entregou. "L'illusionniste" chega até nós pelas mãos do realizador de "Belleville Rendez-Vous", Sylvain Chomet, e estreia-se este mês no Festival de Berlim envolto em polémica.

O último guião de Tati conta a história de um mágico famoso em decadência. O ilusionista foi afastado dos grandes teatros e contenta-se com festinhas de família e actuações em bares. É numa dessas festas que encontra uma jovem que vai mudar-lhe a vida.

É uma história de amor entre pai e filha que se acredita ser uma carta a Helga Marie-Jeanne Schiel. A família ilegítima de Tati, os únicos vivos, acusam o realizador Sylvain Chomet de não revelar que a verdadeira inspiração foi Helga.

Sylvain Chomet recebeu o guião em 2000 de Sophie Tatischeff, a filha legítima. O cineasta contactou a herdeira de Tati para lhe pedir permissão para incluir um clip do filme "Jour de Fête", em "Belleville Rendez-Vous". "O grande cómico francês escreveu o guião 'L'ilusionniste' e tinha intenção de o filmar com a sua filha", disse Sylvain Chomet. E mais não acrescentou acerca da polémica.

drama familiar Helga sempre soube quem era o seu pai. Mas só teve coragem de lhe escrever na adolescência. Jacques Tati já era o aclamado realizador francês, com um sentido de humor apurado, vencedor de um Óscar. Helga estava num orfanato em Marrocos quando escreveu várias cartas ao pai e tentou contactá-lo de todas as formas. Nunca obteve resposta. Foi nessa altura, em 1956, que Jacques Tati escreveu o argumento deste filme. Originalmente estava escrito como uma carta e só agora foi tornado público. Casada, com filhos e netos, a viver no Reino Unido, Helga só revelou a história depois de saber da existência deste filme.


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