Diplomacia

Obama confirma encontro com Dalai Lama e aumenta tensão com Pequim

por Joana Azevedo Viana, Publicado em 03 de Fevereiro de 2010   
Depois de Taiwan, o líder tibetano é o novo entrave nas relações sino-americanas. China já avisou: encontro entre os Nobel da Paz não trará bons resultados aos EUA
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"Se os líderes dos Estados Unidos escolherem encontrar-se com o Dalai Lama desta vez, isso vai lesar a confiança e a cooperação entre os nossos países." A ameaça foi feita ontem pela voz de Zhu Weigun, vice-ministro do Partido Comunista Chinês, e veio aumentar a tensão nas relações diplomáticas entre China e Estados Unidos. Em causa estava o encontro entre o presidente americano, Barack Obama, e o líder tibetano, o Dalai Lama.

A China reagiu logo aos primeiros rumores e, mesmo em Israel, a vice-embaixadora chinesa, Zhang Xiao, deu uma entrevista onde sublinhou que, "desde que Obama foi eleito, a administração tem tentado minar as relações sino-americanas". Ao fim do dia chegou a confirmação: fonte da Casa Branca anunciou o encontro entre os líderes e as atenções viraram-se para o presidente - até agora acusado de ceder às vontades do regime comunista.

Um nobel problemático Em Outubro, num piscar de olho à China, Obama adiou a reunião com o Dalai Lama na visita do líder espiritual ao país. Na sua caderneta ficou o registo de ser o primeiro presidente norte- -americano a não conceder o privilégio de um encontro ao Nobel da Paz que a China acusa de ser um "arruaceiro" e "chefe de um grupo separatista".

"Como podem os chineses confiar na sinceridade do Dalai Lama quando diz que respeita o Partido Comunista e a lei chinesa sobre o Tibete, se ele defende que, depois de 60 anos no poder, está na altura de o partido se retirar?", perguntou há uma semana Weigun, no fim das negociações chinesas com o Dalai Lama.

As ameaças de ontem não foram claras. Houve referências a "medidas adequadas" para mostrar aos "países envolvidos que erraram". A mais explícita, contudo, foi uma ameaça repetida pela China: "Em que é que [o encontro] ajudará os Estados Unidos a superar a actual crise económica?"


Tiro pela culatra A venda de 6,4 mil milhões de dólares (4,6 mil milhões de euros) em armas pelos EUA a Taiwan foi a primeira demonstração de força da administração Obama face a Pequim. O jornal estatal chinês escreveu mesmo que "a mentalidade preventiva de guerra fria e a hipocrisia moral" de Washington apanhou a China de surpresa.

O anúncio feito na última sexta-feira de facto não caiu bem ao país, que desde 1949, quando Taiwan se autonomizou, reclama soberania sobre o território. De imediato houve ameaças de abrir uma guerra comercial às empresas exportadoras do armamento - um feitiço que ameaça virar-se contra a China.

Para além de minar a sua indústria, o país incorre numa violação directa das regras do comércio internacional. Entre as empresas envolvidas no negócio conta-se a Boeing, cujas peças representam 53% da frota de aviões comerciais da China. E de acordo com o regulamento da Organização Mundial do Comércio (OMC), a discriminação de fornecedores estrangeiros de equipamento civil é sancionável.

Fontes do sector aeronáutico chinês referiram ontem ao "Financial Times" que, contas feitas, as sanções que a OMC vai impor às exportações do país se as ameaças forem por diante equivalerão à totalidade das perdas das empresas americanas que a China pretende sancionar. São equações a mais para uma economia altamente baseada nas exportações. "Provavelmente só vão castigar [a Boeing] por seis meses, encomendar 20 Airbus e deixar o assunto morrer", apontaram as mesmas fontes. Da mesma forma, as ameaças indefinidas face ao encontro de Obama com o Dalai Lama também poderão não ser concretizadas. O final do mês trará as respostas.


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