Trabalho. Desde o primeiro governo de Cavaco que não era tão mau para os jovens
Publicado em 15 de Maio de 2009
Desemprego obriga os mais novos a procurar alternativas noutros países
Francisco Aguiar tem 23 anos e só não está sem trabalho hoje porque um amigo foi de férias ontem, deixando um lugar vago como empregado de mesa num café-restaurante do Chiado, em Lisboa. Francisco foi e, com alta probabilidade voltará a ser, um dos 91,5 mil jovens de-sempregados com menos de 25 anos que actualmente existem em Portugal, segundo dados do Eurostat que colam na perfeição com os que o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgará hoje.
Segundo as estatísticas europeias, em Portugal havia 465 mil pessoas sem trabalho no primeiro trimestre, sendo a taxa de desemprego correspondente de 8,4% da população activa. O Eurostat divulga uma taxa corrigida cerca de uma décima de ponto percentual acima da oficial (do INE). Assim, espera-se que o nível de desemprego que hoje é divulgado suba para 8,3%. A maior parte dos analistas confirma este número; outros estão mais pessimistas, já que os últimos dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional dão conta de um fluxo muito forte de novos desempregados que se registam nos centros de emprego.
Mas quem diz Francisco diz Rui ou Tomás. Todas estas pessoas, contactadas pelo i, fizeram ou fazem parte de uma estatística bem negra: a da taxa de desemprego jovem. Nos primeiros três meses do ano, esta subiu acima dos 18% da população activa com menos de 25 anos. Considerando as últimas décadas percebe-se que a incidência do desemprego na população jovem durante a actual legislatura é a pior desde o primeiro governo de Aníbal Cavaco Silva (entre final de 1985 e meados de 1987). A taxa média de desemprego jovem desde o início do mandato de José Sócrates é de 16,5%, com tendência para subir. No primeiro governo de Cavaco foi de 19,6% e a tendência para descer.
Rui Tato Lima, licenciado em Ciências Políticas, tem hoje 25 anos e "adora o dinheiro que ganha" a trabalhar no Barclays em Dublin, Irlanda. "Acabei o curso em Junho de 2007 e estive 11 meses a procurar trabalho. Só me ofereciam ninharias." Apesar da grave recessão irlandesa, Rui sente-se "bem" e "seguro" no emprego. "Tenho um contrato permanente, ganho cinco vezes mais do que ganharia em Portugal e trabalho numa área em expansão: a cobrança de dívidas de clientes portugueses por abuso do cartão de crédito." De facto, no quarto trimestre de 2008, a taxa de desemprego dos jovens licenciados portugueses (32,3%) foi a mais alta de um grupo de 13 países da União Europeia e ultrapassou a da Grécia, refere o Eurostat.
Francisco Aguiar fez o secundário no Liceu António Arroio, em Lisboa. Sempre que quer ganhar dinheiro a sério parte para outros países. "Tenho ido uma vez por ano à Dinamarca, à apanha de morangos. Ganho 4700 euros por um mês e meio de trabalho e pago lá os impostos. Cá só me aparecem trabalhos tipo carne para canhão. Gostam do meu desempenho, mas em nenhum sítio me fizeram propostas para continuar." O último trabalho de Francisco foi na produção do Cirque du Soleil. "Trabalhei dez horas, a ganhar cinco euros à hora. É mínimo", lamenta. Hoje prolonga a carreira de precário a servir às mesas num café/galeria de arte/restaurante do Chiado, em Lisboa.
Tomás (primeiro nome) estudou artes gráficas na Etic, em Lisboa, e também não tem trabalho fixo. "Neste preciso momento estou a pintar a casa de um familiar. É uma forma rápida de ganhar dinheiro. Tenho tentado a ilustração, mas há muita gente no mercado e ainda não consegui. Por isso o estrangeiro é uma opção em aberto, como tem sido, aliás", explica.
De quem é a culpa? Os especialistas ouvidos apontam o dedo à crise e às sucessivas falhas nas políticas económicas e educativas dos governos. "Portugal está toldado por duas crises: uma conjuntural, esta que se vive no mundo, e a outra estrutural, que resulta dos sucessivos fracassos dos governos, de Guterres a Durão Barroso/Santana Lopes", diz Luís Mira Amaral, ex-ministro do Trabalho de Cavaco Silva. "O desemprego aumentaria mesmo sem a crise financeira, pois em Portugal as pessoas continuam a ser formadas de forma deficiente e nas áreas erradas. É um problema quando uma empresa quer contratar um analista financeiro ou um engenheiro."
É o que pensa também Pedro Adão e Silva, especialista em mercado laboral. "Continuamos a ter gente mal preparada, em áreas que não interessam e um peso excessivo de actividades tradicionais, pouco produtivas. E os progressos recentes que conseguimos nos sectores exportadores tecnológicos e competitivos foram deitados por terra pela crise. Podemos estar a falar de um retrocesso de cinco ou seis anos", explica.
Mira Amaral sublinha, no entanto, que "é demagogia pura dizer que este governo é culpado pela recessão e pelo desemprego. Mas podia fazer mais: ajustar a lei que prevê a redução dos horários de trabalho e dos salários, salvando assim mais pessoas do desemprego".
Pedro Adão e Silva também iliba Sócrates do descalabro. "Se não fossem as iniciativas de apoio ao emprego, o desemprego já estaria nos 500 mil".
O que faz o governo O executivo de Sócrates anunciou um reforço das políticas pró-emprego em 2009, onde cabe "um aumento para 40 mil estágios profissionais destinados a jovens, a somar aos 25 mil de 2008. Prevê-se também que, este ano, o Estado acolha 38 mil candidaturas a estágios de formação e qualificação profissional.
O Estado apoia ainda os empregados em empresas com forte redução da actividade, abrangendo 20 mil pessoas. E existem medidas para incentivar as empresas a contratação de desempregados, novos e velhos. Se tiverem sucesso, cerca de 57 mil poderão voltar ao mercado de trabalho em 2009.
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