Felgueiras. Um oásis no deserto do desemprego

Publicado em 15 de Maio de 2009   
É o concelho onde o desemprego mais caiu no último ano. O i foi saber porquê
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A escova rotativa que o Fábio Juliano utiliza diariamente para polir a pele de incontáveis sapatos não tem meio de parar. O jovem, de 24 anos, veste uma bata de cor indefinida e mascarrada dos óleos e graxas. A cera entranha-se-lhe nas unhas. Fábio começou a trabalhar na fábrica J. Sampaio & Irmão em Janeiro, juntando-se às 118 pessoas que saíram da lista de desempregados no concelho de Felgueiras, no espaço de um ano. Foi este o município onde o desemprego mais caíu, neste período, em contraciclo com o resto da região Norte - e mesmo com a maioria dos concelhos do país -, numa altura em que a taxa de desemprego atinge os 9,3% (segundo dados da Eurostat), o valor mais alto dos últimos 20 anos (ver textos das páginas 18 e 19).

Fábio procurou emprego durante quase um ano e mesmo quando se fartava de "estar em casa sem fazer nada", confiava que iria conseguir alguma coisa. Hoje confessa que se arrepende sobretudo de ter abandonado a escola no 7º ano. De tal forma que pensa a estudar. "O mal é que não tenho bases e para arranjar um bom emprego é preciso ter estudos. Só em adulto é que vemos as asneiras que fazemos quando somos novos...", lamenta.

Encontrámos mais duas caras novas. Daniela Vaz, natural de Felgueiras, tem 20 anos e a modelação do calçado é a sua função na J. Sampaio & Irmão, onde se produzem-se cerca de 1.000 pares de sapatos por dia. Daniela abandonou a Suíça apenas quatro meses depois de lá chegar - não resistiu às saudades. Mais sensível do que Fábio à importância das qualificações, assim que regressou, meteu-se num curso e está a fazer um estágio profissional. Sente-se "uma sortuda" porque nenhum dos colegas de turma conseguiu emprego. "A maior parte da minha família trabalha no calçado", conta - e foi no calçado que Daniela encontrou o seu lugar.

Desde Janeiro de 2009 que Vânia Cunha, também com 20 anos, trabalha na mesma empresa. A sua área é a contabilidade e o emprego veio em boa hora: tinha investido num curso de especialização tecnológica de aplicações e informática de gestão, para reforçar as suas qualificações . Agora, é trabalhadora estudante: está a tirar uma licenciatura em Ciências Empresariais em horário pós-laboral. Vânia reconhece que o mercado está "complicado", nos dias que correm, mas não se quer afligir, pelo menos por enquanto, com o facto de o curso que escolheu ser "o que tem mais licenciados no desemprego".

Produção sazonal A gerência da J. Sampaio & Irmão tem feito uma forte aposta na inovação e no reforço dos recursos humanos. Infelizmente, contudo, é esta a excepção que confirma uma regra negra: há cada vez mais portugueses no desemprego, especialmente no grupo que compreende os jovens até aos 24 anos.

Dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) revelam que, em Fevereiro de 2009, havia 3.687 desempregados em Felgueiras, menos 118 do que no período homólogo. Apesar de, em termos brutos, outros concelhos apresentarem quedas superiores, quando está em causa a relação entre a queda do desemprego e o peso deste indicador no total de novos desempregados, Felgueiras é o município que mais se destaca.

Com uma queda de 3,1% no desemprego, o contributo do concelho para a subida do desemprego nacional é o mais baixo do país. Um cenário para o qual o i obteve diferentes explicações. O presidente da Associação Empresarial de Felgueiras, Inácio Ribeiro, lembra que há sectores onde a produção é sazonal, havendo "ciclos de aumentos" de empregados ao sabor das necessidades produtivas. O mês de Fevereiro, por exemplo, fechava um ciclo e preparava a estação de Inverno, sendo expectável que a curva da empregabilidade desça a seguir.

Já Paulo Gonçalves, da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos, explica que Felgueiras "é o principal centro produtivo de indústrias exportadoras de calçado", representando pelo menos 40% das exportações portuguesas. Ali, este é o sector "que emprega mais gente". Somando a isto o aumento de 10,5% de exportações em três anos, o facto de se exportar "mais de 90% da produção" e um aumento de 2% dos empregos, sobram poucas dúvidas de que o sector está mesmo a crescer.

Microfábricas De acordo com Carlos Pereira, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Sectores Têxteis, Vestuário, Calçado e Curtumes do Distrito do Porto, o sobe e desce estatístico no concelho de Felgueiras pode também ser entendido à luz de um fenómeno "crescente": o encerramento de grandes empresas, que suportam um número "significativo" de trabalhadores e a sua substituição por uma quantidade notável de micro-empresas - muitas vezes dirigidas pelas mesmas pessoas - que absorvem os mesmos trabalhadores. "Quem as cria são, normalmente, os proprietários de empresas que vão à falência", explica Carlos Pereira.



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