Ensaio

A voz da Ásia: Kishore Mahbubani

por Henrique Raposo, Publicado em 02 de Fevereiro de 2010   
A Europa não está apenas a perder poder material (demografia, economia, poder militar). A Europa também está a perder autoridade moral para determinar aquilo que é legítimo dentro da comunidade internacional. A agenda moral asiática, liderada por Kishore Mahbubani, entrou em jogo
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Cimeira de Copenhaga foi uma espécie de oficialização mediática do declínio europeu. Os EUA negociaram o acordo final com a China, o Brasil, a Índia e a África do Sul. Ou seja, Obama criou um novo concerto de grandes poderes sem a presença da UE. Os europeus ficaram - literalmente - fora da mesa dos grandes. Esta secundarização da Europa é o resultado da ascensão normativa das potências asiáticas. Os europeus não estão apenas a perder poder material; também estão a perder autoridade moral perante a comunidade internacional. A famosa ascensão asiática não é apenas um desafio económico e estratégico; é, acima de tudo, um desafio normativo. Os asiáticos têm a sua própria agenda moral e política, e já não aceitam as lições morais dos europeus. Copenhaga comprovou isso mesmo.

Na cimeira, os europeus não tiveram capacidade para impor as suas narrativas normativas. Porquê? A resposta tem uma simplicidade marcial: para os asiáticos, as metas europeias de redução das emissões de CO2 não são medidas prioritárias. Se os europeus querem mudanças técnicas ao nível da emissão de CO2, os asiáticos querem mudanças políticas na ordem internacional. Se os europeus estão preocupados com o estado do gelo do Árctico, os asiáticos estão preocupados com o estado do FMI e do Banco Mundial. Para um europeu, o tal aquecimento global antropogénico é uma afronta que deve ser combatida. Para um asiático, a afronta está no facto de os europeus terem o exclusivo da presidência do FMI. Para um asiático, o facto de os europeus continuaram a fazer proteccionismo económico (por exemplo, a PAC) é um dado mais grave que o aquecimento global.

Por outras palavras, algures em Copenhaga, o moralismo apolítico dos europeus esbarrou no realismo político dos asiáticos.

Mahbubani: profeta asiático Perante este novo mundo, não vale a pena fazer a típica "birra" europeísta. Nós, europeus, devemos ter a humildade de compreender a agenda dos asiáticos. E, neste sentido, convém ler com atenção os livros de Kishore Mahbubani (KM), a voz asiática, o Kissinger de Singapura.

KM é um autor incómodo para o leitor europeu típico, não só porque é implacável ao apontar o declínio da Europa (vê a UE como um "anão político"), mas também porque a própria linguagem dos seus textos é completamente estranha às formas de pensar "europeístas". Mas, ao contrário do que possa parecer, KM não é um intelectual antiocidental. KM não é um Frantz Fanon asiático. Os seus livros, claro, revelam um intelectual asiático confiante, com um olhar crítico sobre o Ocidente, mas não são manifestos anti-Ocidente. Aliás, até podemos dizer que os seus livros constituem, de forma paradoxal, uma defesa da ordem ocidental, da ordem internacional liberal liderada pelos EUA desde 1945 (FMI, OMC, Banco Mundial, etc.). KM exige que os estados ocidentais respeitem as regras e valores ocidentais, ou seja, exige que o Ocidente mantenha a sua palavra em relação ao resto do mundo no que diz respeito aos princípios da ordem liberal (por exemplo, se cair num proteccionismo antiasiático, o Ocidente estará a trair os seus próprios princípios). KM não defende a criação de uma ordem asiática em substituição da actual ordem ocidental; defende, isso sim, a renovação da velha ordem ocidental. E essa renovação deve ter um propósito claro e justo: as potências asiáticas devem sentar-se na grande mesa da ordem global, ao lado de americanos e europeus.

A agenda normativa e política Em dois livros que mereciam tradução imediata - Beyond the Age of Innocence (2005) e The New Asian Hemisphere (2008) -, KM resume, na perfeição, a agenda moral e a agenda política das potências asiáticas. Nestas duas agendas encontramos um ponto em comum: a crítica ao eurocentrismo. Segundo o Kissinger de Singapura, os ocidentais continuam presos a esquemas mentais que reflectem o passado de dominação colonial, e por isso têm dificuldade em compreender as reivindicações normativas e políticas dos asiáticos.

Como bom cidadão de Singapura, KM é adepto dos valores asiáticos. E a narrativa dos valores asiáticos construiu a sua própria modernidade; uma modernidade autoritária sem ligação com a modernidade liberal do Ocidente. KM confessa o seu enorme respeito pelas sociedades ocidentais, mas critica o excesso de individualismo e a escassez de consciência social que existe no Ocidente; e não tem dúvidas em dizer que essa amoralidade ocidental está a conduzir o Ocidente ao seu declínio inexorável. Esta "Marcha da Modernidade Asiática" de KM encaixa na perfeição na teoria neoconfucianista (defendida por intelectuais como Tu Weiming). Esta teoria tem procurado fundir a tradição confucianista com a modernidade científica e tecnológica. Em paralelo, os neoconfucianistas desenvolveram uma doutrina dos direitos humanos completamente distinta da dos direitos humanos ocidentais. Os direitos humanos, tal como são concebidos pela tradição ocidental, estão ligados aos direitos inalienáveis do Indivíduo. Ora isto choca com o espírito comunitário da Ásia confucianista. Os direitos humanos confucianistas surgem assim como os defensores dos direitos inalienáveis da comunidade. Concordemos ou não com esta agenda normativa, uma coisa é certa: os asiáticos, liderados por KM, desenvolveram uma modernidade que não passa pela sociedade liberal e pela democracia.

Ao nível político, KM resume as típicas reivindicações asiáticas: as instituições internacionais (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) têm de ser reformadas a fim de garantir aos asiáticos um maior destaque institucional. De forma simples, os asiáticos querem subir ao mais alto posto da hierarquia internacional. Naturalmente, KM afirma que a actual ordem internacional tem um enviesamento eurocêntrico inaceitável. O facto simbólico deste eurocentrismo institucional é o acordo informal (entre americanos e europeus) que determina que o FMI deve ter sempre um presidente europeu e o Banco Mundial deve ter sempre um director americano. KM é claro em relação a este acordo de cavalheiros formalizado em 1945: é insultuoso e humilhante para o resto do mundo. Depois, entre outras coisas, KM considera que os lugares da França e do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU são completamente anacrónicos. Portanto, ao nível político, a argumentação de KM é bastante simples: "O velho eixo transatlântico não pode continuar a controlar o mundo." Por outras palavras, depois de dois séculos de domínio incontestado, o Ocidente tem de aprender a partilhar poder e responsabilidade com os asiáticos.

Em suma, KH - como todos os asiáticos - exige respeito moral e intelectual pela modernidade asiática e ao mesmo tempo exige que os ocidentais dêem dignidade política aos asiáticos nas grandes instituições internacionais. Depois de Copenhaga, os europeus não podem continuar a desprezar esta dupla exigência asiática. Em vez de olharem para os ursos-polares, deviam olhar para os asiáticos, esses homens baixinhos que estão a flanquear a Europa em todos os campos da política internacional.


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