Visto de fora
Como a web e a genética mudam as relações amorosas
por Francesco Alberoni, Publicado em 02 de Fevereiro de 2010
Podemos especular sobre como vai ser o futuro, mas não o podemos adivinhar. Certo é que vai haver mudanças, mesmo em coisas tão profundamente pessoais e humanas como o amor
Perguntam-me muitas vezes como vão mudar as relações entre os sexos quando as crianças que agora têm 12 ou 13 anos forem adultos. Qual será o efeito da liberdade sexual, da pornografia precoce, do uso de drogas, da multiplicação das relações via web? E respondo sempre que não sabemos qual vai ser o futuro e que se enganam aqueles que o imaginam como uma expansão do presente. Infelizmente, a mudança é sempre irregular. Muitas vezes, o ponto de partida é uma inovação tecnológica. Foi a metralhadora que criou a guerra das trincheiras e depois os tanques e os aviões para a vencer. Foram os antibióticos que produziram o enorme aumento da população na Ásia e em África. Foram os contraceptivos que permitiram que as mulheres planeassem o número de filhos, tivessem uma vida sexual livre, estudassem e tivessem uma carreira.
Sinto que, no futuro próximo, as relações entre os sexos serão condicionadas pela cada vez maior frequência das relações pela web, pelas manipulações farmacológicas do sistema nervoso e pela engenharia genética.
Hoje em dia já há muita gente a usar substâncias químicas para se animar, acalmar, dormir, ter relações sexuais, recordar ou esquecer. Estão em curso pesquisas tendentes a permitir modificar a memória e manipular a paixão amorosa. Mais impressionantes ainda são as aplicações possíveis da genética. Esta vai permitir a programação das características físicas e mentais dos filhos recorrendo a bancos de esperma ou a manipulações do genoma. É como se o ser humano pudesse autoconstruir-se à sua vontade, correndo o risco de se tornar artificial, pouco autêntico.
Os grandes escritores adivinharam muitas vezes os dilemas fundamentais dos respectivos séculos. George Orwell, em "1984", apresentou-nos a terrível capacidade de falsificação do totalitarismo. Aldous Huxley, em "O Admirável Mundo Novo", previu a separação entre sexo e reprodução, o empobrecimento emocional e a difusão das drogas.
Eu também o fiz, em "I Dialoghi degli Amanti", onde imagino um mundo que se rende à manipulação genética e à neurofarmacologia, e em que os protagonistas apenas reencontram a própria humanidade e a própria verdade com um enorme amor erótico feliz, sincero e fiel. Porque, como o êxito do filme "Avatar" confirma, todos queremos viver mais tempo, ser mais belos, mais sãos, mais felizes, mas também ser mais nós próprios, mais autênticos e verdadeiros e sentir-nos profundamente compreendidos e amados.
Sociólogo, escritor e jornalista
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