Manuel Alegre, no anúncio da sua intenção de se candidatar à presidência, denunciou o principal problema do país: o medo
Manuel Alegre anunciou a disponibilidade para uma candidatura à
Presidência da República com um discurso à altura das circunstâncias. Nele referiu os principais problemas do país, que eu resumiria numa palavra: medo. Não um vago medo de viver, de que nos fala o filósofo
José Gil, mas sim um concreto e situado medo de não ter condições para viver decentemente:
desemprego,
precariedade e
erosão dos serviços públicos como resultado da crise estrutural de um modelo de desenvolvimento que foi precisamente iniciado pela economia política do
cavaquismo.
Interpretando bem a natureza da chefia do Estado, Alegre enunciou os valores da sua plataforma política:
republicanismo, ancorado numa visão exigente dos direitos de cidadania, onde se incluem os direitos laborais;
socialismo, ancorado no ideal de justiça social concretizado pela existência de serviços públicos de acesso universal;
intensificação da democracia, em particular na sua dimensão participativa; combinação judiciosa de
patriotismo,
europeísmo e
cosmopolitismo.
Esta plataforma e, talvez mais importante, as consequentes intervenções políticas de Alegre nos últimos anos, bastaram para que dois ressentidos intelectuais da
viragem liberal de uma esquerda que se quer minoritária, actuais eurodeputados e protagonistas de uma pesada derrota eleitoral do seu partido -
Vital Moreira e
Correia de Campos - lançassem a acusação de que Alegre seria demasiado "radical" e incapaz de conquistar o "centro".
Vital Moreira deu dignidade ideológica a este juízo, afirmando que Alegre não teria participado na "modernização da social-democracia".
Manuel Alegre teve precisamente o mérito de ter recusado o triste destino de quem seguiu um roteiro pensado pelos adversários da social-democracia como força de reforma substancial do capitalismo, sejam eles intelectuais ordoliberais alemães ou economistas do "Consenso de Washington".
Um roteiro que conduziu a esta crise e à impotência de uma
União Europeia reduzida a uma máquina de construir mercados nos espaços onde deve vigorar a lógica da solidariedade que impede, por exemplo, que o trabalho seja de novo reduzido ao estatuto de mercadoria.
O famoso
centro depende sempre da configuração do debate político, da forma como os assuntos da vida colectiva são abordados e debatidos. Isto tem a ver com hegemonia ideológica e com as palavras que esta autoriza. Tão importante como ter o apoio do
BE, do
PCP e do
PS - e ninguém melhor do que Alegre para o conseguir e assim quebrar a incomunicabilidade entre as esquerdas - é forjar as palavras certas, as que redefinem o centro do debate, rompem com um consenso esgotado e produzem um bem que escasseia: esperança. Eu tenho esperança que quem escreveu um poema como "
As Mãos" saiba continuar a fazê-lo e assim, talvez, ganhar as próximas eleições presidenciais.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
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