Reportagem
Destino: Dérbi de Milão. A elegância contra o frio
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 30 de Janeiro de 2010
A cidade tem estilo, o estádio é arte, os adeptos respeitam-se, os jogadores são cavalheiros. Eis um jogo gelado mas reconfortante
Lá fora, estão zero graus. Cá dentro -3. Sim, cá dentro, na nave espacial. A nave espacial é o Giuseppe Meazza, estádio onde jogam Inter e Milan. Começa aqui a viagem do i a Milão para assistir a um dos muitos dérbis europeus - mas um dos raros com elegância, sem clubite aguda.
O caminho de metro da catedral Duomo (zona nobre da cidade) até ao estádio (estação Lotto, linha vermelha) é feito entre adeptos dos dois clubes, que gozam uns com os outros. "Sabes qual é a segunda melhor equipa de Milão?", pergunta um cinquentão a um puto com estilo pós-moderno (barba à Gattuso, gola à Cantona e penteado à Balotelli). "Os suplentes do Inter", responde e todos se partem a rir, sejam eles interistas ou milanistas. A diferença entre uns e outros é centenária. Mas não se ouvem insultos, só cânticos a puxar pela equipa e até pelo treinador (Mourinho, pois claro: Il Speciale). Os cachecóis azuis (do Inter) e encarnados (do Milan) misturam-se alegremente nas carruagens e assim prosseguem a pé dois quilómetros, desde a estação Lotto até ao estádio. Nesse trajecto, o frio é de cortar a respiração e parece que as pessoas estão mais gordas, tal a quantidade de roupa necessária para minimizar o bater de dentes. Mas tudo é esquecido quando se avista o estádio, que se ergue entre prédios e árvores enormes e se parece com uma nave espacial. As quatro torres, edificadas para o Mundial-90, são assustadoras. Itália é um país histórico. Em cidades como Roma, Florença, Siena, Veneza e Verona, vira-se uma esquina e lá está um monumento. Até quando se tropeça, é num pedaço de história. Em Milão, a beleza não é tão artística mas tem os seus monumentos. Um deles é Meazza, uma obra do tamanho de Inter e Milan.
Uma vez no estádio, a sensação é ainda mais esmagadora. É como o Grand Canyon (EUA), onde as rochas milenares, cada vez mais íngremes e eternas, se riem das pessoas que as visitam, dos seus problemas e preocupações. O Meazza, bairro de San Siro, é assim. Sentimo-nos pequenos. E quando enche, como no dérbi (80 019 espectadores), os gritos dos adeptos (do Inter no topo norte, com cadeiras verdes; do Milan no topo sul, com cadeiras azuis), os 212 jornalistas na bancada de imprensa ao ar livre e a passerelle (impunha-se um tapete vermelho, mas paciência) de modelos esculturais e antigos jogadores dão o ar hollywoodesco ao jogo. Aliás, é costume os jogadores encontrarem-se na discoteca Hollywood, na Corso Como, após os jogos.
Sorte a nossa que o jogo não é à italiana: não há cá catenaccio. E o árbitro - que utiliza o quarto balneário do estádio (há um, clássico, só para o Inter; há outro, high-tec, só para o Milan; há o dos visitantes; e o dos árbitros) - é o pior em campo, o que obriga Mourinho a danças estranhas na lateral, acompanhado de Figo (que se estreou no banco, face à ausência de Oriali) e Silvino (que é expulso na primeira parte, por protestos).
Na zona mista, lugar onde se juntam centenas de microfones, câmaras fotográficas e blocos de notas, há respeito entre todos. O assessor de imprensa é uma figura não preponderante no processo. Ou seja, ao contrário do que se passa em Portugal, os jogadores falam e o acesso não está limitado ao humor do dito cujo. Esta figura está, portanto, a passarinhar pela zona mista mas não impede nada. Ao contrário de Portugal, insista-se. Pela zona mista, passam interistas e milanistas. Uns mais bem-dispostos que outros, mas todos faladores e cordiais. Sem birras, outra característica portuguesa. Seedorf é o primeiro a entrar. Com classe, o holandês olha nos olhos, vê as credenciais e sorri, enquanto cumprimenta os stewards, todos com blusões do Inter, que, afinal, joga em casa. É fora de série, também fora do campo. Seguem-se Maicon e Mancini a correr desalmadamente e a entoar o nome de Júlio César, não o imperador, mas o guarda-redes do Inter que defendeu um penálti de Ronaldinho no fim. E personagens como Gattuso (compenetrado), Materazzi (sem a máscara de Berlusconi), Pirlo (pensativo), Balotelli (calado), Ronaldinho (paciente), Milito (falador), Dida (social), Zanetti (um senhor), entre outros.
Todos, sem excepção (e mais seriam se os tivessem solicitado), deram a sua opinião, posaram com adeptos a sorrir e assinaram autógrafos. Nas calmas... Ser grande é saber lidar com estes momentos pós-jogo, seja qual for o resultado. E nós, por cá, para quando esse estilo? Pode ser com este frio e tudo que a gente não se importa.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Destino: Dérbi de Milão. A elegância contra o frio
Actividade em ionline