O Bairro da Bela Vista, em Setúbal, foi construído em 1976 para alojar, de forma fácil e expedita, famílias de retornados de África e outras instaladas em habitações precárias que trabalhavam nas indústrias da zona. Os primeiros moradores chegaram em 1980 e a procura de fogos não parou depois de aumentar. Hoje vivem nos três blocos da Bela Vista à volta de 7000 pessoas falando dezenas de línguas diferentes. Apesar disso, ainda é um Bairro de novos. A média ronda os 34 anos e há uma grande percentagem de jovens adultos (dos 18 aos 25) e adolescentes.
O problema é que por ali a miséria e a ausência de perspectivas se sentem muito a sério. Cinquenta por cento vive na pobreza, mais de mil recebem o rendimento social de inserção, 28,7 por cento estão no desemprego (um valor três vezes acima da média nacional e o dobro do distrito). Destes últimos, a maioria não tem mais do que 34 anos e muitos andam à procura do primeiro emprego. É escusado acrescentar que quase ninguém quis alguma coisa com a escola. Em toda a Bela Vista 30 por cento não completou o ensino básico e cerca de um em cada dez não sabe ler nem escrever.
Os desacatos desta semana, que puseram a PSP plantada no Bairro, não foram inéditos. Já tinha havido antecedentes de violência em anos anteriores. Em 2007, na passagem de ano, foi alvejada uma viatura dos bombeiros. Roubos, posse ilegal de armas e actos de vandalismo são frequentes. Os moradores pacatos da zona dizem que já deixaram de ligar quando ouvem tiros por ser "normal". Nos últimos dias foi pior: tumultos, incêndios a automóveis e contentores do lixo e ataques à esquadra da polícia com pedras e cocktails molotov. Desde sexta-feira passada, a PSP já prendeu 12 pessoas com idades entre os 19 e os 25 anos e ontem deteve aquele que é tido o como o principal instigador dos distúrbios: um jovem de apenas 19 anos.
Sem laços à família ou à escola, ritos sociais, vivência exterior ao Bairro e acima de tudo sem emprego, estes jovens pressentem que o pequeno crime compensa, quando nada mais compensa. Medem forças com os que têm a força (a polícia) e rejeitam em bloco uma sociedade que, pensam eles, os rejeitou há muito. "O problema deste pessoal é quando não tem onde ganhar dinheiro", disse um dos desordeiros. O problema de toda a gente, acrescento eu, é quando não tem onde ganhar dinheiro. Se o Estado e a sociedade não arranjarem ocupação a estas pessoas, se não as "prenderem" a um local que não seja só a prisão, então é melhor que se preparem. Ninguém sabe o que aí vem.
Jurista




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