Telemóvel na sala de aula. Para usar sem limites, diz professora

Publicado em 15 de Maio de 2009   
Uma psicóloga da escola de Setúbal decidiu fazer dos telemóveis um instrumento de trabalho dos alunos. A experiência foi um sucesso
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A pergunta: Como podem os telemóveis ser utilizados na sala de aula? A resposta: às escondidas dos professores. Os alunos demoraram a perceber a pergunta da psicóloga da Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal. Afinal, são proibidos em quase todos os estabelecimentos de ensino. Eduarda Ferreira reformulou a questão. Como podem os telemóveis ajudar nas tarefas escolares dentro de uma sala de aula? Ah! Pois? Mas de que adianta responder se o seu uso continua interdito?

Eduarda Ferreira quer mudar essa premissa: "Gostava que as escolas perdessem o medo de cada vez que um telemóvel está nas mãos de um adolescente." Até porque poucos são os alunos que cumprem o regulamento: "Em vez de ser uma ameaça porque não transformar o aparelho num aliado dos professores?" A psicóloga passou da teoria à prática e convocou as cobaias que serviram de matéria-prima para trabalhar na sua tese de mestrado - 24 alunos do 7.o ao 9.o ano e 12 professores aceitaram participar na experiência.

As propostas dos alunos chegaram em catadupa. Usar a câmara para fotografar o quadro com o resumo da matéria, fazer vídeos para registar visitas de estudo, marcar as datas dos exames na agenda, configurar o alarme para lembrar que há trabalhos de casa a fazer, usar a internet para pesquisar, o bloco de notas para apontamentos, o bluetooth para partilhar ficheiros ou o gravador para reproduzir a aula em casa. Os professores nunca tinham pensado nisso. As ideias eram boas - excepto uma: "Enviar sms para passar as respostas dos testes uns aos outros." Sugestão chumbada; mas valeu a tentativa.

Em contrapartida, as mensagens podem ser usadas pelos professores: "Se enviar conteúdos por sms aos alunos, eles não resistem e vão ler", concluiu um docente. A proposta é tentadora, mas os receios continuam a dominar: "A maioria considerou que o uso do telemóvel pode trazer benefícios desde que seja com a sua coordenação", conta Eduarda Ferreira. Mesmo com essa condição, ainda há outro perigo: "Existe a preocupação de estar a contribuir para acentuar a dependência dos jovens do telemóvel."

Demasiadas dúvidas para o entusiasmo dos adultos não ser tão instantâneo como o dos miúdos. Cada um deles trouxe até ao gabinete da psicóloga reportagens de vídeo sobre a escola. Mostraram em imagens e sms o que corre bem e o que corre mal na Sebastião da Gama: "Denunciaram a falta de segurança à entrada do edifício ou elogiaram a biblioteca bem organizada." Acrescentaram ainda notícias de última hora que chegaram à caixa de correio do telemóvel de Eduarda Ferreira - casas-de-banho que são uma "lástima", computadores da biblioteca "muito lentos", salas com buracos ou auxiliares de educação "mal dispostos".

As actividades foram um êxito e tiveram mais uma vantagem: custo zero. "Qualquer uma das funcionalidades não implica encargos quer para os pais quer para a escola." Resta saber se os professores vão aderir ao projecto: "As reacções foram positivas, mas nenhum deles manifestou intenção de concretizar as ideias dos alunos", confessa Eduarda. Falta derrubar a maior barreira de todas: "Os telemóveis ainda são vistos pelos professores como um espaço dos jovens", o território em que são os alunos a dominar e que pode comprometer a autoridade do professor.

Eduarda ainda não se rendeu. Conta com a cumplicidade de um grupo de docentes. Por enquanto são poucos - oito ou nove no máximo - e estão espalhados por algumas escolas do país. Usam os telemóveis como um instrumento pedagógico para motivar os adolescentes a participarem nas aulas e partilham os resultados num fórum que a psicóloga da escola de Setúbal criou na net: "A página www.m-escola.com serve sobretudo para os docentes não sentirem que estão sozinhos nesta tarefa", explica.

Um dia, acredita Eduarda Ferreira, as escolas - e, quem sabe, até o Ministério da Educação - vão perceber que não há assim tantas razões para temer o telemóvel. "Estaríamos a dar mais um passo para encurtar a distância entre a escola e o mundo dos adolescentes." E como as tecnologias estão em constante evolução, imagine-se as potencialidades que um objecto de bolso pode trazer para dentro de uma sala de aula.


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