Os adolescentes inadaptados de todo o mundo estão agora órfãos

por Luís Leal Miranda, Publicado em 29 de Janeiro de 2010   
Morreu J. D. Salinger, voz da angústia juvenil e autor predilecto de homicidas famosos. Tinha 91 anos, mas estava silencioso há cinco décadas
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"Espero que quando eu morrer alguém tenha o bom senso de me atirar para o rio ou qualquer coisa do género. Tudo menos espetarem-me no raio de um cemitério. Um sítio com pessoas a trazerem montes de flores aos domingos e essas tretas. Quem precisa de flores depois de morto? Ninguém." Lê-se no capítulo 20 de "À Espera no Centeio", romance que tornou célebre o escritor norte-americano J. D. Salinger. Depois de noticiada a sua morte, ontem, por "causas naturais", resta esperar que seja feita a sua vontade.

O motivo pelo qual é boa ideia procurar as vontades finais do autor na sua obra é simples: desde os anos 60 que Salinger evitou o contacto com o mundo exterior sob qualquer forma: livros, entrevistas ou cartas. A biografia de Salinger depois de atingido o sucesso literário é feita de rumores, pistas falsas e peças soltas de um puzzle que o próprio montou. Isolou-se numa quinta em Cornish, New Hampshire, e deu ordens às suas editoras para não lhe reencaminharem correio dos fãs, pedidos de entrevista ou manuscritos de amadores. Os forasteiros que tentavam tirar Salinger do casulo eram recebidos com antipatia ou uma caçadeira. E foram muitos.

"À Espera no Centeio" causou polémica quando foi publicado, em 1951, mas passou rapidamente de livro maldito (retirado das prateleiras por "conteúdos obscenos") a obrigatório - está no currículo da disciplina de Inglês em muitas escolas norte-americanas. Em todo o mundo ter-se-ão vendido mais de 60 milhões de cópias. O seu personagem principal, Holden Caulfield, transformou-se no mais fiel modelo do comportamento adolescente, num retrato fiel que ainda hoje faz os adultos exclamarem: "É mesmo isto, é mesmo isto."

No resto da sua obra, Salinger construiu o paradigma da família disfuncional norte-americana (os Glass, de "Franny and Zooey" e "Seymour - Uma Introdução"), modelo que viria a ser adoptado por cineastas como Wes Anderson ("Bottle Rochet", "Os Tenenbaums") e Mike Nichols ("A Primeira Noite"); escritores como Bret Easton Ellis, Jay McInerney e Richard Yates.

A obra de Salinger tornou-se objecto de especial atenção quando uma cópia de "À Espera no Centeio" foi encontrada na mochila do homem que matou John Lennon. Mark David Chapman terá dito à polícia que aquele livro continha "tudo o que é preciso saber". Na biblioteca de John Hinckley Jr, acusado de tentativa de assassinato de Ronald Reagan, em 1981, estava o mesmo livro.

"O que me deixa K.O. é um daqueles livros que, assim que o terminas, tens vontade que o autor fosse teu amigo e lhe pudesses ligar sempre que quisesses", descreve Holden Caulfield. Salinger era homem para escrever esse tipo de livros, mas não era o género de pessoa que atendesse tal telefonema.


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