Primeiro plano
Apanhado em contrapé
por João Cardoso Rosas, Publicado em 28 de Janeiro de 2010
À primeira vista, Pedro Passos Coelho parece ter todas as condições para se impor. Quando se lê o seu livro, as dúvidas começam a surgir
Pedro Passos Coelho (PPC) é uma figura inegavelmente simpática e parece ter todas as condições par tirar o PSD do lamaçal em que se encontra. Em primeiro lugar, porque vem de fora da oligarquia medíocre - mas com um alto conceito de si mesma - que tem dominado o partido. Em segundo lugar, porque rompe com o cinzentismo da actual líder e dos seus principais apoiantes. Em terceiro lugar, porque não se esconde em meras manobras de bastidores - diz ao que vem, entra em campanha sem complexos e publica um livro com as suas ideias, ou seja, faz tudo como deve ser.
No livro que agora publicou, intitulado "Mudar", PPC utiliza a palavra de ordem obamiana ("change"). Sabe que, para mobilizar o partido, e mais tarde os eleitores, é preciso apelar a um movimento de transformação, é necessário criar as raízes da esperança. Sem isso, nada feito (contraprova: Ferreira Leite). Mas o livro de PPC não é um mero slogan eleitoral. Afirma orientações substantivas para o país que convém ter em conta. No entanto, é quando se passa à substância que começam a surgir as dúvidas.
A impressão geral que se guarda da leitura é a de um político apanhado em contrapé pelos ventos da história. Aquilo que PPC afirma de forma mais contundente teria todo o sentido aos ouvidos da maioria se tivesse sido dito há dois ou três anos, antes da crise financeira e económica, antes da maior visibilidade da crise ambiental, antes da renovada importância dos estados e da sua acção na economia e na sociedade; no momento actual, parece deslocado, ou impensado.
Na segunda e mais importante parte do seu livro, Pedro Passos Coelho considera inevitável a mudança do Estado no sentido deixar de ser fazedor para ser meramente regulador. Mais que isso, preconiza o carácter supletivo do Estado e a transferência dos seus recursos para o sector privado. Num raciocínio típico do liberalismo de direita, PPC releva apenas a importância das funções de soberania - e a necessidade de o Estado as desempenhar melhor -, mas aponta a urgência de rever as suas funções sociais. Fala também de igualdade de oportunidades e equidade social, mas isso é contraditório com o que se disse anteriormente e desempenha na sua prosa uma função retórica.
É certo que PPC tenta uma defesa preemptiva face a este tipo de acusação e não deixa de o fazer com galhardia. Numa secção intitulada "As grandes ilusões da crise global", PPC procura mostrar que a crise actual não é nem deve ser o fim da economia de mercado e o regresso à economia estatizada. Isso é certamente verdade. Mas a economia de mercado tem muitas formas e não se confunde com o capitalismo de laissez-faire. A crise que temos atravessado está a mudar a visão prevalecente sobre a relação ente o mercado e o Estado, e não no sentido preconizado por Passos Coelho. A realidade é o que é e não adianta tentar evitá-la. A visão que PPC tem do papel do Estado - que é a questão central da política actual - já fez todo o sentido num passado recente, mas surge agora fora do tempo.
Professor universitário
de Teoria Política
Escreve à quinta-feira
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