Fórum Económico Mundial

Davos. A elite global acredita que a crise já terminou

Publicado em 27 de Janeiro de 2010   
O Fórum Económico Mundial arranca hoje. E ninguém quer falar do passado, especialmente os banqueiros
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A elite global começa hoje a discutir em Davos, na Suíça, as soluções para os males do mundo em mais uma sessão do Fórum Económico Mundial. No início do século XX, dez anos antes da Primeira Guerra Mundial, Hans Castorp, um engenheiro naval de Hamburgo, viajou até Davos: era lá que estava internado, num dos famosos sanatórios da vila suíça, o seu primo tuberculoso, Joachim Ziemssen. Mas o próprio Hans só abandonaria o sanatório para engrossar o Exército que marchava para a guerra. No sanatório descobriu os prazeres da vida introspectiva, encontrando-se com pessoas que procuravam a cura, o descanso, o relaxamento e a conversa. Muita conversa. Hoje Davos é mais famosa pelas suas pistas de esqui do que pelo tratamento de doenças respiratórias, como Thomas Mann a retratou em "A Montanha Mágica". Mas, uma vez por ano, ainda continuam a chegar pessoas de todo o mundo à pequena cidade alpina, para fazer como os companheiros de sanatório de Castorp: falar, falar, falar. É isto que se espera dos mais de 2500 participantes: tomar o pulso ao planeta na primeira reunião pós-crise.

A começar hoje e até 31 de Janeiro, líderes políticos de 55 governos mundiais, titãs do mercado e estrelas do showbizz, reúnem-se para discutir o tema: "Melhorar o estado do mundo: repensar, redesenhar e reconstruir." A reunião fica marcada pelo suicídio do chefe da polícia suíça responsável pela segurança do evento. Foi ontem encontrado morto num quarto de hotel.

Nos últimos 40 anos, o Fórum de Davos tem sido um indicador do que se passa no mundo e, a julgar pelo tema deste ano, a crise já foi atirada para trás das costas pela elite global. É tempo de reconstruir, reformar.

O presidente francês Nicolas Sarkozy fará a intervenção de abertura e, enquanto o momento não chega, é o fundador do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, que justifica a escolha do tema. "Temos de olhar para o encontro no contexto do que se está a passar e o que vemos é que o sistema de cooperação global não está a funcionar."

De Davos não vão sair soluções para as reformas do sector financeiro ou dos reguladores mundiais. Esta é, porém, uma oportunidade única para gerar ideias e para fazer lóbi.

O Império contra-ataca Ninguém diria que apenas há um ano o encontro na cidade alpina mais parecia um grande velório. As falências e os planos de resgate suportados pelos governos mundiais afastaram a elite financeira que regressa em 2010 em estilo e em força. Lá estará o CEO do Barclays, os presidentes do HSBC, do Standard Chartered, do Deutsche Bank, administradores de topo do Santander e dos norte-americanos Morgan Stanley, Bank of America e Citigroup - os últimos dois foram de mão estendida a Washington pedir apoio financeiro.

A maior parte das comitivas tem um objectivo claro: fazer lóbi contra as medidas apresentadas pela administração Obama no dia 21 de Janeiro. A malha à volta de Wall Street voltou a apertar depois de Obama ter proposto fortes restrições à actividade da banca comercial - os bancos passam a estar proibidos de comprar hedge funds, de fazer investimentos de alto risco e as operações de proprietary trading são altamente limitadas. A serem aprovadas, as prioridades definidas por Obama - cuja paternidade se fica a dever ao antigo presidente da Reserva Federal, Paul Volcker -, provocariam um terramoto no sector, com a maioria dos bancos norte-americanos a ter de optar entre as operações comerciais e as financeiras.

É pouco provável que as medidas da administração Obama venham a obter o apoio necessário no Congresso, mesmo que o sentimento de ódio face ao império financeiro esteja ao rubro nos Estados Unidos, depois dos bancos terem anunciado a distribuição de 150 mil milhões de dólares (106 mil milhões de euros) em bónus relativos a 2009. De acordo com o barómetro da confiança da consultora Edelman, a banca está entre os três sectores mais descredibilizados aos olhos dos contribuintes americanos - só superada pela indústria dos media e dos seguros. Dados divulgados ontem mostram que a confiança nos bancos desceu a pique: de 68% em 2006 para 29% em 2009. A banca vai tentar expiar os seus pecados. Será Davos o sítio certo para o fazer?

perder influência Bill Clinton vale mais do que Davos. Quem o diz é a consultora Weber Shandwick: no seu último estudo descobriu que a Clinton Global Iniciative, que se realiza em Setembro em Nova Iorque, é o mais influente fórum mundial. Logo a seguir vem o Chief Executive Club de Boston e, a fechar o pódio, o conselho de CEO do "Wall Street Journal". Davos aparece em quarto, e em rota descendente. Então, para que serve Davos nos dias de hoje?

David Rothkopf, influente académico americano e autor do livro "Superclasse, O Poder da Elite Global e o Mundo que Ela Está a Construir", propõe uma tese ao "Washington Post": "Para perceber o apelo do Fórum Económico Mundial é preciso voltar ao liceu. Uma das coisas que aprendemos no liceu, é que os seres humanos, tal como os lobos ou os peixes, viajam em grupos. E também nos liceus, vemos que há grupos - como o da malta cool - que aumentam o seu prestígio só por andarem uns com os outros. Se pensarmos em Davos, não é nada mais do que isso: busca de estatuto." A razão de existência do Fórum Económico Mundial parece ser, afinal, a causa da sua decadência. "Está a tornar-se demasiado grande para os putos cool se encontrarem uns aos outros. E claro, os putos cool do século XXI - como os chineses - não estão lá em grande número", assinala Rothkopf.

Para todos os que não estiverem particularmente interessados em ouvir as dissertações sobre a forma de "repensar, redesenhar e reconstruir", há sessões alternativas com temas que vão da "Economia da felicidade" aos "Avanços na neuroeconomia". Há palestras, muitas festas, jantares e beberetes propícios ao networking, ao head-hunting ou simplesmente a um bom negócio. Haja estatuto.


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