Forum Economico Mundial
Davos. Banqueiros saem do armário para contra-atacar
Publicado em 26 de Janeiro de 2010
Depois de ter desaparecido no ano passado, o sector bancário regressa em força à Suíça. E vem "armado"
Com a administração Obama a quase ignorar pela segunda vez o Fórum Económico Mundial de Davos, que arranca amanhã, os banqueiros vão aproveitar a ocasião para fazer lobby em força em resposta às medidas anunciadas por pelo presidente norte-americano na última semana. No entanto, o timing não podia ser pior. A reputação da classe bateu no fundo já este mês, depois de conhecido que só nos Estados Unidos os bancos vão distribuir 150 mil milhões de dólares (106 mil milhões de euros) em prémios relativos a 2009. Este é um número impossível de justificar ao país, especialmente quando o sector vai ao fórum defender o status quo e quando um dos assuntos principais na agenda é o drama no Haiti.
A banca, aliás, esteve bastante longe da Suíça no ano passado: crise financeira oblige. Barclays, Citigroup, Goldman Sachs, Bank of America ou Morgan Stanley são alguns dos gigantes da banca mundial que já anunciaram uma comitiva de peso para o evento, depois de no ano passado terem evitado o mesmo. Os cerca de 30 líderes políticos, as centenas de líderes empresariais e os maiores responsáveis dos bancos centrais mundiais, além do meio milhar de jornalistas, serão os alvos predilectos das entourages bancárias que vão à Suíça para desmontar o plano da administração Obama que visa limitar o raio de acção do sector financeiro. "Evitar que os contribuintes fiquem reféns dos bancos", foi o mote de Barack. Convencer os decisores, é a resposta dos banqueiros. "Eles devem fazer parte do fórum, mas para a opinião pública a discussão vai resumir-se a Alpes versus Haiti", comentou ao "The Guardian" Leslie Gaines-Ross, estratega para relações públicas da Weber Shandwick, a propósito dos dois mundos em discussão no mesmo fórum - leia-se: discutir a recuperação do Haiti enquanto se faz lobby pela banca numa estância de ski de luxo. "É bom que não sejam [banqueiros] vistos em grandes jantares ou a fazer ski", avisa o responsável de uma das maiores empresas de relações públicas.
Obama perde Brown O plano de Barack Obama perdeu, entretanto, um aliado. O Reino Unido, depois de Gordon Brown ter liderado os primeiros passos num provável raid à banca, não deverá seguir as pisadas dos norte-americanos. Alistair Darling, responsável pelas Finanças, já avançou que não vê grande utilidade prática nas medidas anunciadas pelos norte-americanos. "Não vai servir para nada. Os bancos são globais. São perfeitamente capazes de se organizarem de tal forma que se o sistema for difícil num país então vão para outro e isso não é bom para ninguém", comentou.
Sobre a intenção de limitar o tamanho dos bancos, notou o chanceler do Tesouro britânico em entrevista ao "Sunday Times", também é algo que "não tem impacto", dando como exemplo o Northern Rock. "Era muito pequeno em termos globais, mas quando afundou teve um grande impacto sistémico [propagação pelo restante sector]", algo aliás que também foi visível em Portugal, com o Banco Português de Negócios (BPN) - longe de ser um grande na banca portuguesa - a ser nacionalizado devido ao risco sistémico que acarretava, segundo alegou o governo português na altura.
Se os britânicos estão cépticos quanto às medidas "obamianas" - já equiparadas a leis Draconianas -, o presidente norte-americano tem nos franceses um aliado. Sarkozy tomará a palavra em Davos amanhã, dia 27, precisamente no mesmo dia em que Obama fará o seu discurso do Estado da Nação. No capítulo da crise financeira, deverão estar em uníssono.
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