Memória
Cantona. De gola baixa e com o pé em riste
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 26 de Janeiro de 2010
Há 15 anos, Éric agrediu um adepto do Crystal Palace. Depois pediu desculpa... à prostituta, com quem dormiu na noite anterior à leitura da sentença
Bungee jumping na Macau Tower com 233 metros de altura é perigoso? Rafting no rio africano Zambeze é arriscado? Sim e sim. Espere aí, pensando bem, não e não. Há 15 anos, Éric Cantona relativizou esses perigos num simples jogo de futebol, com um golpe de kung fu aplicado no adepto Matthew Simmons, durante o Crystal Palace-Manchester United (1-1) para a liga inglesa.
Estamos em Janeiro de 1995 e o Selhurst Park, casa do Crystal Palace, está repleto de publicidade da moda (consola Sega). Atrás desses painéis, 18 224 espectadores estão de olhos postos num empate a zero, sem emoção. Pois então esperem para ver... Aos 49 minutos, ou seja às 21 horas, Schmeichel alivia a bola da sua área e proporciona um contra-ataque mas Cantona derruba Richard Shaw, alegadamente com um pontapé nas pernas, conforme escreveu o árbitro Alan Wilkie no seu relatório. A confusão é imediata, com a gritaria dos adeptos e a contestação dos jogadores do Crystal Palace, a que se juntou a crispação dos do United, quando Wilkie mostrou o vermelho directo. Era o quinto de Cantona em 98 jogos pelo Manchester.
É aí que vemos um Cantona irreconhecível. A olhar para o banco, onde está Alex Ferguson com a cara mais rosada que a pantera dos filmes de Peter Sellers, baixa a gola da sua camisola e começa a caminhar em direcção ao balneário, escoltado por Norman Davies, chefe dos equipamentos do Manchester. É então que Matthew Simmons, de 20 anos e adepto do Crystal Palace, sai do seu lugar e desce 11 filas para insultar o número 7. "Fuck off , back to France, you French motherfucker" (vai-te f****, volta para a França, seu francês filho da p***). Cantona ouviu mas não engoliu em seco e passou à acção, como nunca ninguém havia feito. E não foi só o golpe de kung fu, pois seguiram-se mais dois pontapés no estômago do prevaricador.
Enquanto os outros jogadores do Manchester United discutiam com os adeptos, Schmeichel acalmava Cantona e levava-o para o balneário. Fim da história? Não, nada disso. Estamos só a meio e ainda falta a parte picante, contada por David Davies, então dirigente da federação inglesa, na sua autobiografia, recentemente lançada. Diz ele que Martin Edwards queria expulsar Cantona para sempre e foi Alex Ferguson quem acalmou o presidente do United e ainda foi a França a fim de convencer o avançado francês a voltar a Inglaterra para cumprir a suspensão, mais tarde atribuída pelo tribunal (nove meses na prateleira, mais 120 horas de serviço comunitário e 10 mil libras (11,43 mil euros) de multa).
No dia da sentença, a 1 de Abril de 1995, Éric foi desculpar-se à federação perante um comité de observadores. E aí começou a paródia, que parece mentira mas aconteceu mesmo. "Pensei, oh meu Deus" - recorda David Davies - "tenho de me preparar para o fogo-de--artifício, porque na última vez que ele [Cantona] foi a uma reunião destas, em França, deu um murro num dos executivos. Portanto, tudo era possível. Menos aquilo que ele disse num perfeito inglês, dito da forma mais calma que se possa imaginar: 'Quero pedir desculpa ao presidente da comissão', começou Éric. 'Quero pedir desculpa ao Manchester United, a Maurice Watkins [director do clube] e a Alex Ferguson. Também quero pedir desculpa aos meus companheiros e à federação. E ainda à prostituta que dividiu a minha cama ontem à noite.' Será que eu tinha ouvido bem? Pelo menos, dois executivos ouviram porque tossiram e depois engoliram em seco. Não deu para acreditar."
Mais tarde, na conferência de imprensa, Cantona dirigiu-se aos jornalistas em pouco mais de 18 segundos, enquanto bebia um copo de água. "Quando as gaivotas [jornalistas] seguem a traineira [jogadores], é porque pensam que as sardinhas [frases controversas] vão ser atiradas ao mar [ao público em geral]." Não é Albert Camus, nem Jean-Paul Sartre. É Cantona. Éric Cantona.
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