As obras de saneamento básico da Cidade Velha permitiram descobrir uma desconhecida fisionomia da Ribeira Grande de Santiago muito diferente da actual, onde imperava o luxo e a riqueza dos tempos áureos da primeira capital de Cabo Verde.
“A Cidade Velha teve um passado cosmopolita e, ao que tudo indica, teria dois portos e um elevado número de igrejas e de casarões de dois pisos. É fácil, agora, perceber a riqueza desta cidade mercantil”, explicou à Agência Lusa o Director do Departamento de Arqueologia da Universidade de Cambridge (Inglaterra).
Christopher Evans não tem quaisquer dúvidas. Nos séculos XV, XVI e XVII, a Ribeira Grande de Santiago, hoje também conhecida por Cidade Velha, 15 quilómetros a oeste da Cidade da Praia, teve um período áureo, mas os sucessivos ataques dos piratas, entre eles os do britânico Sir Francis Drake, acabaram por destruir totalmente o centro da primeira cidade construída pelos europeus nos trópicos, a partir de 1462.
“Há 200 anos, a Cidade Velha modificou-se. O que já descobrimos leva-nos a pensar que a cidade era muito diferente. Os edifícios eram maiores e as ruas de então não são as que hoje existem”, sublinhou Evans, uma dos mais renomados especialistas mundiais que colabora, desde 2007, com arqueólogos cabo-verdianos nas escavações da localidade que, em Junho de 2009, foi declarada Património Mundial da Humanidade.
Segundo Evans, nos últimos meses, as escavações acentuaram-se, ao ponto de “desfigurarem” as zonas do mercado e do centro da cidade, onde se descobriu “uma série de trincheiras e um manancial fantástico de artefactos arqueológicos”.
“Muito interessante”, disse o arqueólogo britânico, é o facto de se ter descoberto que, afinal, a antiga Ribeira Grande de Santiago tinha dois portos, um deles no fim da parte sul do mercado, onde se localizava a Alfândega, a Casa dos Escravos e o alojamento dos “clientes”.
“Mas, nos últimos dias, encontrámos, mais ao lado, mais para sul, um novo porto para pequenas embarcações, cremos que destinado a mercadorias e serviços, o que nos leva a supor que a Ribeira Grande de Santiago era uma cidade mercantil com um mercado muito dinâmico”, acrescentou.
Para o especialista britânico, que lidera uma equipa de arqueólogos multinacional, há muitos artefactos que demonstram “uma grande confusão de estilos e de épocas”, entre porcelana chinesa e peças típicas dos países nórdicos e naturalmente africanos.
“Em Dezembro (de 2009) encontrámos uma série de coisas fabulosas na Alfândega. Parece que o edifício foi incendiado depois de destruído, possivelmente quando Francis Drake atacou a cidade em 1585. Encontrámos os restos dos pisos térreos chamuscados e até uma casaca militar, ainda com as medalhas. Encontrámos também, 150 balas de canhão. Seriam as disparadas por Francis Drake? Estamos a averiguar”, exemplificou.
No entanto, todo esse espólio tem um futuro incerto. Segundo Evans, há vontade política do governo cabo-verdiano em continuar com as escavações, um trabalho que, disse, “vai demorar décadas e décadas”.
A ideia de um museu é “bem aceite” pelas autoridades cabo-verdianas, que terão de garantir os meios financeiros, fruto da classificação da Cidade Velha como Património Mundial. “Não sei como isto irá acabar. A arqueologia traz um grande potencial turístico e a instalação de museus trará mais turistas e mais dinheiro para a comunidade local. Penso que seria bom continuarem as escavações - o governo deseja-o - embora saiba que vai demorar uma eternidade até se conseguir mapear o local com precisão”, concluiu.
A Ribeira Grande de Santiago foi porto de chegada dos portugueses em 1460 e, dois anos mais tarde, foi lá criada a primeira cidade do mundo construída por europeus nos trópicos, mais precisamente por Portugal, tornando-se a primeira capital do arquipélago que, mais tarde, seria conhecido por Cabo Verde.




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