Adopção internacional: crianças estrangeiras são casos raros em Portugal
Publicado em 23 de Janeiro de 2010
Em seis anos só 53 crianças estrangeiras foram adoptadas por portugueses. Duas famílias contam a experiência
A família vem de qualquer lado: Ásia, África ou do fim do mundo, se tiver de ser. Manuel tem quatro anos e aprendeu a lição quando perguntou se tinha vindo de uma barriga como os outros colegas da escola. Sara explicou que o foi buscar a Cabo Verde e o filho aproveitou o embalo da conversa para confessar que gostava de ter uma mãe "castanha" como ele. A resposta não foi convincente, mas Manuel encontrou uma solução para o seu problema: "Usar creme bronzeador foi a proposta dele." Riram até a barriga doer.
Sofia é a mãe de todos os dias, mas Gabriela tem outra que ficou em Cabo Verde. É a tia que cuidou dela até quase aos quatro anos e, por isso, tem direito a aparecer na árvore genealógica que desenhou para mostrar na escola. Duas mães - "uma castanha e uma branca" - estão ao lado de uma rapariga de sete anos com cabelo em carapinha. Em casa, ninguém estranhou até porque Sofia já se habituou a ser a terceira mãe na vida da sua filha.
Gabriela e Manuel são casos raros em Portugal. Só 53 crianças estrangeiras foram adoptadas por famílias portuguesas, entre 2003 e 2008. As fronteiras ainda estão por derrubar e a adopção internacional é o caminho que apenas algumas dezenas de papás descobriram para não estar anos a fio à espera. "Se recorresse aos canais convencionais, ainda hoje não seria mãe", conta Sofia Couto Duarte que, em Julho de 2006, viajou com o marido até à ilha de Santiago, em Cabo Verde, e regressou em Dezembro a Leiria com a Gabriela ao colo.
Muito mais rápida foi Sara Amado, que em três dias trouxe o "Manel" de São Vicente, em Cabo Verde, para viver num apartamento de Lisboa, em 2008. O processo foi acelerado, mas tanto na adopção internacional como na nacional a primeira fase é comum a todos os candidatos. Antes de poderem entrar num avião e aterrar num outro país para trazerem os filhos, é preciso sujeitarem-se a seis meses de avaliação pelos técnicos da Segurança Social. Só após terem o certificado que comprova reunirem as condições para exercerem a paternidade é que começa a aventura dos futuros papás. Cabo Verde é o principal país a que portugueses, franceses ou italianos vão buscar as crianças para a adopção. Os dados mais recentes do Instituto da Segurança Social mostram que, em 2008, 11 das 12 crianças adoptadas no estrangeiro por casais portugueses são oriundas do arquipélago cabo-verdiano.
Todos os anos há crianças a deixarem a cidade onde nasceram para passarem a viver num outro país. Na maioria das vezes é uma viagem pouco pacífica. Durante o primeiro mês a viver em Leiria, o medo não largou a Gabriela. "Chorava porque fazia frio, estranhava a alimentação, que passou a ser mais variada e abundante, desconfiava de tudo à volta porque vivia num meio em que todos eram diferentes dela", recorda a mãe que hoje tem 40 anos.
Os primeiros sinais de adaptação surgiram mal começou a frequentar o jardim-escola. Gabriela tem novos amigos, espaço para correr e brincar, rotinas, um pai e uma mãe lá em casa. Ao fim de dois anos esqueceu quase todas as memórias de Cabo Verde, ficando apenas a recordação da tia, que substituiu a mãe biológica: "A minha filha tem hoje todos os tiques de filha mimada, mas a nostalgia de ser uma menina adoptada permanece." Até porque todos os dias os colegas da escola fazem perguntas difíceis: "Querem saber por que razão os pais são brancos e ela preta." A curiosidade dos amigos teve, durante algum tempo, consequências que deixaram Sofia e João preocupados: "Houve uma fase em que ela se recusava a falar de Cabo Verde, em que queria arrancar a pele para ficar branca como os pais." E o casal teve então de deixar entrar a cultura cabo-verdiana em casa para a filha voltar a ter orgulho nas origens. Há mornas e coladeiras para dançar na sala de jantar, bonecas de carapinha espalhadas no quarto da filha, restaurantes africanos para a família descobrir os sabores tropicais.
Sara Amado teve um bocadinho mais de sorte. O filho veio para Lisboa com um ano e meio e poucas memórias. Mesmo assim, precisou de tempo para se adaptar à nova mãe solteira: "Logo no início, ficou dois dias inteiros a dormir, sem eu perceber o que se estava a passar." Só mais tarde, depois de ler os "poucos livros" publicados sobre adopção soube que foi a forma que o filho encontrou de fazer o seu luto por deixar a outra família.
Um dia, "mais tarde", Manuel e Gabriela vão visitar o arquipélago onde nasceram. "Não agora, só quando ele for mais velho", explica Sara. Os pais de Gabriela também sabem que esse momento vai chegar: "A minha filha tem uma história antes de nós e não podemos, nem queremos, apagar isso da memória dela", diz Sofia. É o caminho inevitável para descobrirem quem são.
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