finanças públicas
Portugal pode contribuir para desmembramento da zona euro
por Nuno Aguiar, Publicado em 23 de Janeiro de 2010
Economista-chefe do banco alemão alerta para o descontrolo das contas públicas portuguesas
Continuam os avisos à navegação sobre o estado das finanças públicas nacionais, que voltam a abalar a credibilidade internacional de Portugal. Desta vez foi o recém-nomeado economista-chefe do Deutsche Bank, Thomas Mayer, a deixar ontem o alerta: a situação da Grécia e "outras economias frágeis" como Portugal, Espanha e Irlanda podem provocar um desmembramento da Zona Euro. Também o "The Wall Street Journal" pôs o dedo na ferida, ao avançar que o Orçamento do Estado para este ano "ou vai ou racha"
Entrevistado pelo diário alemão "Die Welt", Mayer revela preocupação com o descontrolo das contas públicas destes quatro países e com a condição anémica do seu crescimento. Caso esta tendência não se inverta, o economista avisa que Portugal, Espanha e Irlanda podem ver-se na mesma situação que a Grécia.
Thomas Mayer questiona: "Abandonarão estes países problemáticos a Zona Euro por si mesmos?" E responde logo de seguida: "Por que abandonariam o seu guarda-chuva de protecção? Serão os outros [a fazê-lo], os países estáveis, a verem o euro tão arruinado que não queiram mais estar ali. Isso em teoria é possível."
Embora os economistas portugueses considerem o alerta do representante do Deutsche Bank exagerado, reconhecem que a deterioração contínua das contas públicas poderá no extremo levar a saídas do euro. "Não acho que a Zona Euro se possa desmembrar, mas esses países podem ser afastados do euro", defende João Duque, director do ISEG. "Não é um cartão vermelho, nem estamos tão mal como a Grécia, mas pertencemos a um grupo de países com graves problemas."
Existe uma percepção internacional crescente de que Portugal faz parte do "clube dos problemáticos" - os PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Num inquérito conduzido pela agência de informação financeira Bloomberg a 873 dos seus subscritores, Portugal é colocado em quinto lugar no que diz respeito ao risco da dívida. À frente de Portugal estão apenas Grécia, Argentina, Rússia e Irlanda.
"É muito grave começar a existir essa percepção [que Portugal está no mesmo grupo que a Grécia]", explica o economista António Nogueira Leite. "A acontecer, um afastamento de Portugal do euro seria uma absoluta tragédia para Portugal. Possuir passivos em moeda forte e activos em moeda fraca seria insustentável."
No entanto, nem todos os líderes europeus partilham da opinião de Thomas Mayer. No início deste ano, a chanceler alemã Angela Merkel já tinha sublinhado a necessidade de uma "responsabilidade comum" em torno da moeda única, defendendo o apoio à economia helénica. Carlos Santos, professor de economia da Universidade Católica do Porto assegura que uma eventual saída de qualquer país do euro teria sérias consequências políticas. "Não me parece possível um cenário de desmembramento. O euro é uma construção política, não pode ser destruído de uma perspectiva económica. A saída de um país seria muito complicado de gerir politicamente."
A pressão do Deutsche Bank surge num momento crucial para a economia portuguesa - a apenas quatro dias da apresentação do Orçamento do Estado."Vai seguramente provocar mais pressão, o que não é mau. Mas o governo não tem dado atenção suficiente a estes avisos internacionais", avança João Duque.
O "The Wall Street Journal" escreveu ontem que este orçamento "ou vai ou racha", aconselhando Portugal a seguir políticas de maior austeridade, depois do que aconteceu à Grécia. "Qualquer tipo de petulância nas políticas, de forma a obter melhores números do que em 2009, será encarada com grande suspeição pelos mercados", escreve o influente diário norte-americano.
A opinião do economista-chefe de um dos maiores bancos europeus surge depois de a agência de rating Moody's, uma das três agências de notação financeira, ter dito que a economia portuguesa enfrenta um "risco alto" de "morte lenta" ao longo dos próximos anos.
O défice orçamental português deve estar próximo dos 8,5% do PIB, o mais elevado dos últimos 24 anos, ao passo que a dívida pública directa já ultrapassa os 90% do produto.
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