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Salários 40% das empresas portuguesas cortam nos custos de trabalho sem mexer na base
por Nuno Aguiar, Publicado em 22 de Janeiro de 2010
Estudo do Banco Central Europeu revela que as conclui que empresas portuguesas são das que menos cortam as remunerações variáveis na Europa
No momento de baixar os custos com trabalhadores, as empresas portuguesas são mais conservadoras que as pares europeias. É esta a principal conclusão de um relatório do Banco Central Europeu (BCE) sobre estratégias de redução de custos que não mexam na remuneração base. O estudo revela que em Portugal o corte na componente variável dos salários é menor que a média europeia.
Enquanto nos 12 países da União Europeia presentes no estudo (ver caixas ao lado), 63% das empresas inquiridas - 12 mil no total, das quais mais 1 436 portuguesas - admitiram utilizar estas estratégias, em Portugal esse número desce para 40%. É o mais baixo entre os países inquiridos.
Quando a tesouraria das empresas fica mais apertada, há a tentação de transferir esse peso para as remunerações trabalhadores. Não se podendo tocar no salário base, surgem estratégias para mexer na remuneração variável.
Durante o braço de ferro entre patrões e sindicatos sobre o aumento do salário mínimo para 475 euros, os empresários invocaram, por mais do que uma vez, o argumento de que a legislação laboral portuguesa era demasiado rígida, dificultando a tarefa das empresas em fazer face a este momento de crise. No entanto, o que o relatório do BCE indica é que nos domínios fora do intocável salário base, os empresários também não actuam.
Luís Palha da Silva, presidente-executivo da Jerónimo Martins (dona da cadeia de supermercados Pingo Doce) e um dos maiores empregadores portugueses, apresenta uma explicação simples para a diferença em relação ao resto dos países: "Os salários base em Portugal são muito inferiores aos outros países. A percentagem de rendimento gasta em em bens essenciais é mais elevada". "Reduzir as remunerações é mais difícil em termos práticos e éticos", assegura ao i.
Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto, concorda. "Pode também ser por falta de vontade, mas, em geral, é porque não podem. É preciso saber que medidas poderiam mesmo ser aplicadas e não são. Em Portugal, algumas destas remunerações não estão sequer ao alcance da maioria das empresas", defende.
No entanto, existem outras justificações. José Alves da Silva, o novo presidente da PME Portugal, coloca o ónus do problema nos ombros dos gestores. "Temo-nos preocupado em privilegiar a formação de trabalhadores, esquecendo que os empresários também precisam de formação profissional e por isso optam por soluções mais simplistas."
De facto, as discussões sobre economia do trabalho giram muitas vezes em torno dos salários base. Este estudo procura apresentar uma outra perspectiva sobre como ajustar custos nesta altura de vacas magras. O BCE perguntou a gestores de 12 mil empresas europeias, que empregam cerca de 37 milhões de trabalhadores, se nos últimos cinco anos utilizaram uma das seguintes estratégias: diminuir bónus, reduzir benefícios, mudanças na organização dos turnos, alterar regras de promoções, contratar trabalhadores com salários mais baixos para substituir outros que saíram voluntariamente e encorajar reformas antecipadas.
Quanto a Portugal, a estratégia mais referida pelos gestores nacionais foi a contratação de trabalhadores com remunerações mais baixas em substituição de funcionários experientes, com 16% das respostas. "As empresas têm reduzido os custos com trabalhadores seniores através da contratação de jovens com mais escolaridade, mas que recebem menos", explica ao i o economista Eugénio Rosa.
João Cantiga Esteves, professor do ISEG, defende, por seu turno, que Portugal está demasiado concentrado nos salários base. "Estamos ainda muito agarrados ao salário base", afirmou, não deixando de notar que "sem essa redução a margem de manobra fica apertada e, talvez por isso, se vivam tempos difíceis".
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