Tecnologia
Apple. Desde os dez mandamentos que não se falava tanto de uma tábua
Publicado em 22 de Janeiro de 2010
O novo iTablet da Apple vai revolucionar a forma como consumimos conteúdos multimédia. Ou pelo menos assim o promete
Final de 1994. Num episódio dos "Simpsons", dois miúdos tomam notas numa espécie de agenda electrónica com ecrã táctil chamada Newton MessagePad. Só que o reconhecimento de escrita era tão mau que a ordem "beat up Martin" (bater no Martin) foi transformada em "eat up Martha" (comer a Martha). Chateado, um dos personagens animados deita fora o aparelho, que vai bater na cabeça de outro aluno.
Não foi a única vez que o mau reconhecimento de escrita e a fraca bateria do MessagePad foram ridicularizados, até ao estertor final, em 1998. O fabricante? Apple. A mesma empresa que pôs milhares de fãs a dormir às portas das lojas para comprar iPhones. A mesma empresa que se prepara para revolucionar o mercado com o seu primeiro tablet, uma espécie de portátil que parece uma ardósia. Nada menos que uma ressurreição do desaparecido MessagePad. Será desta?
Bastidores Steve Jobs não estava na Apple quando o software Newton e o hardware associados foram parar ao mercado. Tinha sido despedido ainda nos anos 80 e só voltou em 1996, quando a Apple comprou a empresa que então dirigia, a NeXT. É claro que Jobs não demorou muito a empurrar o CEO da altura, Gil Amelio, para fora da empresa. Uma das suas primeiras acções depois de reassumir o cargo foi descontinuar produtos pouco lucrativos, incluindo o Apple Newton.
No entanto, a ideia de voltar a ter um PDA (Portable Digital Assistant) nunca desapareceu. Jobs assumiu-o numa conferência em 2004 e começou a trabalhar na ideia dois anos depois - mesmo antes de lançar o iPhone e de assistir à sua ascensão no mercado mundial.
O processo foi lento e doloroso. A pequena equipa de engenheiros que se reuniu secretamente começou a trabalhar quase do zero, partindo da fabulosa tecnologia multitoque que daria ao iPhone a sua aura de telemóvel messiânico. A visão: um ultraportátil sem teclado (slate), com ecrã multitoque e funcionalidades inéditas neste tipo de equipamento - como a conectividade 3G. Steve Jobs supervisionou todo o processo com o mesmo espírito obsessivo, perfeccionista e controlador que o caracterizou nas décadas anteriores.
O projecto voltou atrás várias vezes, porque Jobs não estava satisfeito com o rumo que estava a tomar. De tal forma que algumas pessoas envolvidas duvidavam que o tablet alguma vez visse a luz do dia, como chegou a reportar o Apple Insider. Mesmo enquanto esteve numa cama de hospital por causa de um transplante de fígado, Jobs não largou o de- senvolvimento da sua criação. A data original de lançamento era 2008, depois passou para 2010. Isto só pode significar uma coisa: o iTablet será realmente qualquer coisa do outro mundo.
conceito O iTablet é aquilo a que os norte-americanos chamam um game changer. Até agora, os portáteis tipo tablet tiveram pouco sucesso: mais caros, com pior desempenho e sem uma aplicação fantástica que justifique ter um tablet além de um portátil.
Ora isso só aconteceu porque a Apple não entrou no jogo. Os dados que Jobs vai lançar quarta-feira também vão alterar as jogadas de outros mercados: o dos leitores de livros electrónicos, da televisão, dos videojogos e da comunicação social. É isto tudo que Jobs quer pôr dentro do iTablet. Segundo dizia ontem o "Wall Street Journal", citando "fontes próximas", a ideia é reconfigurar a forma como se usam os conteúdos multimédia. "Fazer dinheiro novo com meios antigos", disse o "WSJ". Como? Da mesma forma que iPod e iTunes deram a volta à indústria musical.
Acordos A Apple tem estado em negociações com vários grupos produtores de conteúdos, entre os quais o "The New York Times", a News Corporation, a Harper Collins e a Condé Nast, casa-mãe da "Vogue" e "GQ". As cadeias de televisão CBS e ABC (da Walt Disney) e a editora de jogos Electronic Arts também estão no pacote. Se a Apple se mantiver fiel à sua estratégia, estes conteúdos serão pagos de alguma maneira - o que deixa toda a gente contente e faz da fabricante mais que um simples meio de dispor conteúdos. Com Steve Jobs, o meio é parte da mensagem.
No entanto, há várias questões delicadas envolvidas. Segundo o "WSJ", a ideia é tornar o iTablet partilhável, por exemplo com os membros da família, e adequado às salas de aula, onde poderá substituir os livros escolares. Pelo preço de que se fala, de 800 a mil euros, este alvo pode não ser receptivo - principalmente quando a Amazon oferece os leitores de livros electrónicos mais vendidos do mercado a cerca de 300 euros. Os executivos da Amazon são os que por esta altura terão mais dificuldades em dormir à noite. O iTablet terá software para se transformar em leitor de eBooks, e isso pode minar um mercado que só agora começa a levantar voo. Ainda assim, o que os analistas perguntam é como vai o iTablet convencer os consumidores a andarem com mais um gadget na mala, além dos óbvios telemóvel e portátil? A resposta: terá de oferecer uma experiência tão diferente que mude as regras do jogo.
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Artigo: Apple. Desde os dez mandamentos que não se falava tanto de uma tábua
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