É melhor encontrar outro emprego antes que a crise bata à porta
Publicado em 14 de Maio de 2009
Têm emprego mas querem outro trabalho. Porque temem a crise. Há oportunidades em redes sociais, seminários, grupos informais, retiros e spas. É a força dos contactos
Com a economia no estado em que está, os amigos nunca são demais. Por isso, há algumas semanas, Katherine Wu, executiva da NBC Universal, arrumou num saco de viagem o colchão de ioga, fez 80 quilómetros de carro até à Mohonk Moutain House, em New Paltz (estado de Nova Iorque), para frequentar um retiro organizado pelo grupo 85 Broads, uma rede de mulheres. Entre tratamentos em spas e saudações ao sol (surya namascara), ela e mais 17 executivas falaram sobre o futuro das suas carreiras numa economia destabilizada.
Não foi a primeira vez que esteve num encontro desse tipo. Wu, de 30 anos, encontrou o emprego actual através do grupo 85 Broads. Ela descreve-se como "evangelista em rede", tem o perfil publicado no LinkedIn e recebe cinco a sete telefonemas por mês de pessoas à procura de emprego. Responde a todos. Faz todo o sentido, explica. Um dia pode ser ela a fazer um telefonema desses.
"Acho que há semelhanças entre isto e procurar um parceiro", diz Wu. "O funcionamento numa rede é basicamente um jogo de probabilidades. Se não se sair, não se encontram tantas pessoas."
Com as empresas a despedirem pessoas às dúzias, os que ainda têm trabalho receiam ser incluídos na leva seguinte. Por isso, o ano de 2009 está a tornar-se a era de ouro das relações em rede. As universidades inflectiram o trabalho de procura de antigos alunos, deixando de se centrar em reuniões sociais para passarem a preocupar-se com aconselhamento de carreira e instruções para interacção em rede.
O Center for Networking Excellence de Nova Iorque, que presta serviços de consultoria a empresas, revelou que os pedidos para seminários institucionais aumentaram 50% no ano passado. Por todo o lado surgem grupos informais, devido à esperança que as pessoas têm de que qualquer conhecimento possa conduzir a um trabalho.
Embora as relações em rede sejam habitualmente uma preocupação essencial dos desempregados, hoje em dia muita gente subscreve o princípio de que é mais fácil encontrar emprego se já se tiver um. Estabelecer relações em rede antes de aparecer a carta de despedimento é uma medida da ansiedade que está a infiltrar-se em todos os cantos do mundo do trabalho, no meio de uma recessão que já lançou no desemprego 1,5 milhões de trabalhadores qualificados.
"As pessoas preocupam-se em saber de onde virá o próximo emprego, mesmo antes de perderem o que têm", explica Janet Hanson, antiga executiva da Goldman Sachs e uma das fundadoras da 85 Broads, em 1997. "Sabem que daqui a três meses também podem estar desem-pregadas. Aquilo a que assistimos e o que esperamos que venha a acontecer cada vez mais é as pessoas tornarem-se aficionadas crónicas das redes."
Preocupação crescente Ninguém acredita mais nisto do que Vincent Lauria, de 29 anos, que organiza o Silicon Valley NewTech Meetup Group, cuja participação aumentou 75% desde o Outono, contando agora com 3500 membros. Desde Dezembro, a frequência dos encontros mensais que Lauria organiza num gabinete jurídico em Palo Alto (Califórnia) triplicou. Ele limita as listas de participantes, admitindo um número substancial de 200 pessoas - e, ainda assim, vê-se forçado a recusar muita gente. "Não quero que isto se torne numa convenção", explica.
Mas tornou-se evidente que Lauria está a preencher uma necessidade real. As conversas entre convidados, conta, tendem a centrar-se em dois aspectos: quanto tempo irá durar a recessão e quem poderá ajudá-los se forem despedidos
Lauria diz que há uma crescente preocupação em Silicon Valley entre engenheiros e programadores quanto à segurança dos seus postos de trabalho. Ao mesmo tempo, são alvo de constantes perseguições dos seus pares, na tentativa de estabelecerem contactos.
Há duas semanas, Lauria almoçou com um amigo que lhe pediu um contacto no Twitter. "Enviei uma mensagem a duas pessoas que têm contactos com pessoas no Twitter, mas ambas disseram que não, porque têm tido demasiados pedidos de recomendação. Não queriam desperdiçar capital político em quem lhes parecia que não iria arranjar emprego."
Nesta geração do "constantemente em linha", a ubiquidade é a chave. Veja-se o caso de Sonja Kosman, uma executiva de 32 anos da empresa de publicidade vídeo online Spotzer Media. Diz que frequenta todas as semanas dois certames relacionados com carreiras, em Nova Iorque. Alguns são patrocinados pela Universidade de Columbia, onde Kosman tirou um MBA em 2008. Outros são organizados por grupos profissionais como o Sobel Media NY: Media Information Exchange Group. E isto não inclui as pesquisas que Kosman faz online. No ano passado, aderiu a um grupo, através do site de redes Meetup.com e tem perfis publicados no LinkedIn e Facebook, onde actualmente tem 460 amigos.
"Nunca se sabe onde vão surgir as oportunidades", diz. "Podem vir dos sites. Pode encontrar-se alguém num evento ou na mercearia. É preciso estar aberto a qualquer hipótese."
Os sites de redes sociais, sobretudo o LinkedIn, de carácter profissional , estão agressivamente a tirar partido da sede de estabelecer contactos provocada pela actual situação económica. O LinkedIn tem mais de 37 milhões de membros e declara que ganha mais um membro a cada segundo. Os pedidos de pessoas que usam o serviço de procura de emprego aumentaram 48% desde o ano passado, revela a empresa. O número de membros que recomendam amigos ou colegas (incluídos nas páginas de utilizadores) tem aumentado 65% em cada mês, desde Dezembro.
Eventos em rede Tantas relações em rede têm um preço. "Para tirar todo o partido das redes, gasta-se muito tempo", afirma Cathy Stembridge, directora-executiva da associação de antigos alunos da Northwestern University, de Evanston (Illinois). "Não agrada a todos."
Recentemente, a Northwestern passou a utilizar os recursos afectos à organização de encontros de antigos alunos e outros acontecimentos sociais na proposta de seminários para aconselhamento acerca de oportunidades de carreira, explica Stembridge. Em Fevereiro e no princípio de Março, a universidade organizou eventos em rede em Nova Iorque, Dallas, Minneapolis e Austin (Texas). Também disponibilizou uma nova série em quatro partes na web com aulas dedicadas a temas como este: "Aprenda a cimentar ligações duradouras".
medo e mudança A ansiedade provocada pela incerteza económica tem forçado muitas pessoas a adaptar-se de maneiras que achariam impensáveis há alguns anos. Joseph Farren, vice-presidente de relações públicas mundiais da Waggener Edstrom Worldwide, de Washington, aderiu recentemente ao Twitter. Também começou a reatar contactos com antigos colegas de liceu, através do Facebook. Explica que se sente mais pressionado a relacionar-se em rede do que anteriormente. "As pessoas estão a fazer coisas diferentes porque se sentem vulneráveis."
Já não se trata só de indivíduos que promovem as vantagens de ter uma rede tão alargada quanto possível. As grandes instituições também o fazem, diz Liz Lynch, fundadora do Center for Networking Excellence. Recentemente, Lynch foi contratada pelo Google e pela Boeing para dar instruções aos empregados sobre a forma de se relacionarem em rede nas próprias empresas. "Isto é tão vital para conservar o emprego como para encontrar um novo", garante.
Persistência Para os mais entusiastas das redes, uma inscrição num retiro de ioga ou recordar a festa de finalistas online são assuntos de autênticos neófitos. Há algumas semanas, enquanto Scott G. Cooney, promotor imobiliário de Missoula (Montana), estava no barbeiro a cortar o cabelo, foi abordado por um engenheiro que queria trocar de firma. Ficou com o cartão do homem, mas não o contratou.
A pessoa mais empreendedora a procurar emprego foi uma mulher que, durante três meses do ano passado, assistiu a reuniões da assembleia autárquica local, aproveitando para se apresentar a Scott G. Cooney em cada uma delas. Estava a trabalhar em tempo parcial numa empresa de construção, mas queria um emprego a tempo inteiro. Cooney acabou por contratá-la, como coordenadora de contactos com o público. "Tornou-se bastante interessante", garante.
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