Joana Amaral Dias entra rápida no seu consultório em Lisboa. Aperta a mão com força e segue, despachada. Atrás de si deixa uma imagem - blush carregado, postura elegante e olhos pestanudos. Não desmente a ideia que se forma dela. Mas aqui, a imagem de figura política de esquerda é deixada para trás, enquanto entra no gabinete - duas cadeiras e um divã - onde dá consultas de psicologia.
É pela psicologia clínica que escreve "Maníacos de Qualidade", o seu primeiro livro para o grande público. Nesta obra que chega na sexta-feira às livrarias sob a chancela da Esfera de Livros, Joana Amaral Dias retrata oito personalidades da História de Portugal sob um denominador comum: os seus distúrbios psicológicos/psiquiátricos.
De D. Afonso VI a João César Monteiro, passando por Fernando Pessoa e Antero de Quental, Joana Amaral Dias propõem--se a sentar estas personalidades no divã e dar um nome aos seus comportamentos à luz da psicologia/psiquiatria actuais.
Para o trabalho empregou dois anos de trabalho e as personagens da História entraram na sua vida. São agora fantasmas. E na cabeça de Joana Amaral Dias são pacientes. Com doença, sofrimento e também cura.
A loucura e os loucos atraem-na?
Claro que me atraem, se não não era psicóloga clínica. Atraem-me no sentido do conhecimento do cérebro - um dos grandes mistérios da humanidade - e também no sentido do meu trabalho: "Como podemos ajudar estas pessoas?" Essa é a minha grande motivação na psicologia clínica.
Entre exemplos que dá, qual o caso clínico mais interessante?
Isso é muito difícil de dizer...
Criou uma relação afectiva com todos?
Acho que isso acontece com qualquer pessoa que faz uma biografia - uma relação do biógrafo e da pessoa -, aqui talvez mais ainda porque era essencial tomar contacto com a vida, os sentimentos, os sofrimentos. Em algumas personagens tornou-se bastante próxima. Passaram a ser fantasmas a habitar o meu escritório. Portanto é difícil escolher um. Aconteceu com todos, uns com maior celeridade do que outros. O caso de Margarida Vitória, em que fiz uma relação virtual de psicoterapia com ela, foi mais rápido. E isso se calhar aconteceu menos com Ângelo Lima e António Gancho com os quais a preocupação foi sobretudo com o diagnóstico. A esquizofrenia que estes dois poetas sofriam é a rainha das doença mentais, por isso a esquizofrenia aqui é a personagem principal. Ela é que toma conta.
Se estas personagens fossem tratadas agora o seu futuro teria sido outro? Imaginou como poderia ter sido?
Completamente. Como já estava envolvida com estas pessoas é muito frustrante, como clínica, perceber que se tivessem vivido na época presente teriam sido poupadas a muito do sofrimento a que foram expostas. Por exemplo, a D. Maria I viveu anos e anos num sofrimento enorme. Antero de Quental também...
O fim dele poderia ter sido diferente?
Sem dúvida. O risco de suicídio destas patologias bipolares é elevado, mas hoje em dia a farmacologia e a psicoterapia permitem minimizar em grande medida esse risco de autodestruição brutal e o próprio sofrimento. E no caso de Antero, olhamos para as respostas terapêuticas de pessoas distintas como o dr. Sousa Martins e que lhe aconselhava ele? Queimar-lhe a espinha, por exemplo. Senti a total impotência. E digo-lhe, já era crítica do papel normalizador da psicologia antes do livro, mas agora sou mais.
D. Afonso VI - Psicopata
João César Monteiro - Estado-limite de personalidade
Marquês de Pombal - Paranóia
Fernando Pessoa - Pseudo-loucura
D. Maria I - Delírio de Cotard
Antero de Quental - Bipolaridade
Margarida Vitória - Perturbação histriónica
Ângelo de Lima - Esquizofrenia




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