Anti-stress

Há mar e mar, há surfar sem almoçar e voltar a trabalhar

por Vanda Marques , Publicado em 14 de Maio de 2009   
São gestores, arquitectos, bancários. Em comum têm a paixão pelo surf e a hora de almoço passada na praia. A produtividade aumenta, garantem eles e os especialistas
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Por volta do meio-dia a bancária Fátima Duarte costuma entrar na sua carrinha Volkswagen e, em vez de ir almoçar com os colegas, arranca para a Costa de Caparica. No porta-bagagens tem sempre uma prancha de surf e dois fatos de borracha. Quando chega ao parque de estacionamento, apressa-se a vestir o fato. Todos os minutos contam. Às 14h30, o mais tardar 15h00, volta para o escritório na Avenida Infante Santo, em Lisboa, onde a esperam os números das cobranças e recuperações de créditos.

A bancária, de 37 anos, despe--se na rua, sem pudores. Tira as meias de vidro, em seguida a camisa e a saia. Põe a roupa, muito direitinha, num cabide no banco de trás do carro. Tapa--se com uma toalha de praia e troca a lingerie, que nos dias de surf é sempre discreta, pelo biquíni. Finalmente, veste o fato de borracha. Fátima, surfista há quatro anos, está pronta em dez minutos. Agora é só pegar na prancha e entrar no mar. "Aquela hora que passo dentro de água parece um fim-de-semana. Fico com mais energia para trabalhar, muito mais bem-disposta e consigo lidar melhor com o stresse", diz.

Energia extra Basta uma hora de desporto ao almoço para uma tarde de trabalho cansativa se transformar num dia mais produtivo. Vários estudos científicos provam que o exercício físico além de ter benefícios para a saúde, de reduzir os riscos de AVC e de doenças como a diabetes e o cancro melhora o raciocínio. Uma investigação publicada em Janeiro de 2009 na revista "Scientific American" comprova isso mesmo. O neurocirurgião Fernando Gomez- Pinilla, da UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, revela que o exercício físico desenvolve a zona do cérebro responsável pela memória e pela aprendizagem. O neuropsicológo Nelson Lima concorda. "Quando fazemos exercício físico oxigenamos o cérebro e desta forma alimentamos as células com novas energias." Os psicólogos da Escola Superior de Desporto de Rio Maior, João Nuno Pacheco e Luís Cid defendem ainda que “o exercício físico e o desporto são factores preponderantes para a promoção da saúde, através da adopção de estilos de vida activos e saudáveis, que podem aumentar a qualidade de vida das pessoas. Para além de combater o sedentarismo”. Mas as novas energias resistirão ao stresse de voltar para o trabalho à pressa? Fátima Duarte garante que sim, e diz que é tudo uma questão de organização. Antes de fazer surf, a bancária come fruta para aguentar o exercício e quando regressa opta entre uma salada e uma sopa. O banho também não é problema. "Nos dias de surf uso o cabelo apanhado e quando saio da água ponho gel. Tenho sempre um garrafão de água no carro, para lavar a cara. Quando chego ao trabalho ninguém adivinha que acabei de surfar."

A bancária gosta de ser discreta e só numa ocasião é que deu nas vistas. "Ao mergulhar por baixo de uma onda raspei o nariz na prancha e esfolei-me. Quando voltei para o trabalho toda a gente me perguntava o que se tinha passado", recorda. Apesar destes acidentes, o neuropsicólogo Nelson Lima está convencido de que fazer surf à hora do almoço não prejudica a concentração. Pelo contrário: o especialista defende que o exercício físico melhora a capacidade criativa. "Nos trabalhos que requerem criatividade, as pausas são essenciais. Nesses momentos o cérebro solta-se, mas continua a funcionar de forma inconsciente e as ideias surgem sem esforço."

Cara lavada Foi isso que aconteceu a Pedro Alpalhão. O arquitecto, de 32 anos, surfa desde os 13 anos e já resolveu muitos problemas técnicos dentro de água. O mais recente foi o de um centro de saúde na Guiné Bissau. O edifício vai ser envidraçado, mas Pedro não sabia como resolver a questão do excesso de luz. "Estava a surfar quando me lembrei de pôr ripas verticais de madeira na parte de fora, para proteger os escritórios do sol e tornar o edifício esteticamente mais apelativo."

Pedro Costa Martins também começou a surfar na adolescência. Com 40 anos, o gestor de três empresas na área da segurança no trabalho aproveita todos os tempos livres para ir à praia. Incluindo a hora do almoço. "O surf é um desporto absorvente. Das duas uma: ou adoramos e ficamos viciados ou abandonamos." Tal como Fátima Duarte e Pedro Alpalhão, a carrinha Passat do gestor tem sempre um fato de borracha e duas pranchas. "Já transportei fornecedores com o carro cheio de pranchas e areia. Até tive de os levar ao aeroporto e eles foram apertados no meio do material", conta a rir. O gestor anda sempre de fato e gravata, mas não se atrapalha quando tem de mudar de roupa na rua. Só precisa de uma toalha e alguma destreza. O empresário não se importa de trabalhar com o corpo salgado. A única regra é lavar a cara com água doce.

Sem stresse Pedro Costa Martins, que costuma ir para o Guincho, Carcavelos ou Costa de Caparica, nota que há cada vez mais pessoas a fazer surf à hora de almoço, principalmente executivos. A justificação é simples: aliviar o stresse. "Inúmeros estudos revelam que o exercício físico diminui os estados de stresse, ansiedade e depressão, porque há maior libertação de endorfinas [analgésico natural do cérebro, que provoca uma sensação de bem-estar] o que melhora os estados de humor que promovem um efeito emocional positivo", explica João Pacheco, psicólogo e professor na Escola Superior de Desporto de Rio Maior.

Tiago Elias, de 34 anos, é prova disso. Os dias em que o produtor de televisão chega ao trabalho com sal no corpo são os que correm melhor. Se não faz surf, os colegas reparam logo. "Nos dias em que estou mais irritado dizem-me que vá surfar." Uma hora ou até 15 minutos bastam para conseguir relaxar e aguentar a tarde. "Quando almoço com os colegas não dá para desligar. Surfar dá-me ânimo para trabalhar de manhã, e durante a tarde sinto-me muito melhor."


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